Capítulo 3

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Como era habitual, chegou com relativa antecedência ao hotel preferido pela empresa para realizar este tipo de evento, que era um desses tipos modernos, altos e com vidros espelhados, localizado bem próximo ao belo Parque do Ibirapuera. Deixou o carro nas mãos do manobrista, pegou o elevador panorâmico e desceu no segundo andar, que era onde ficava o maior salão que usualmente era utilizado para convenções.

- Bonita gravata, Pablo. Essa não fala português, hein? – Perguntou com ar despretensioso e um sorriso protocolar a Alice, que era a gerente de marketing, assim que o viu aproximar-se da porta de entrada do grande salão onde seria realizado o evento.

- E se falasse? Cairia ainda mais no seu conceito?

- Se você ainda tivesse algum conceito...

Cruzaram a porta de aço escovado do grande salão, que mais parecia um teatro com as poltronas vermelhas dispostas em fileiras umas atrás das outras, e continuaram distribuindo sorrisos e apertando as mãos dos outros gerentes, superintendentes e diretores que iam aparecendo pelo caminho. Acabaram por escolher estrategicamente as duas poltronas que ficavam no canto direto do salão, localizadas bem ao lado de uma das portas de saída. Sentaram-se, entreolharam-se mais uma vez e a conversa, que ia e voltava da ironia à sinceridade em fração de segundos, prosseguiu com a maior naturalidade do mundo. Afinal de contas, a rotina de cinco anos trabalhando e interagindo juntos praticamente todos os dias havia lhes abençoado com esta intimidade onde as farpas, sempre que sinceras, não deixavam marcas no coração – pelo menos não aparentemente.

- Será que hoje darão algum valor para o nosso trabalho para nos abrirem as portas de alguma superintendência? – Tentou Pablo mudar o rumo da prosa.

- Se não deram até agora, que fato novo geraria isto?

- Sempre fica a esperança, não é?

- Esquece. As promoções já foram fechadas e aparentemente os nossos nomes não estão lá. E, sinceramente, se não nos mandarem embora de repente até que isto poderá ser considerado como lucro.

- Lucro? Você está de sacanagem?

- Eu? Claro que não. O problema é que a gente fica esperando uma intervenção divina quando a porta do céu já fechou e não há mais ninguém lá em cima olhando por nós. Bom mesmo são esses novos contratados, que não tiveram nenhum resultado, mas que sabem fazer apresentações maravilhosas, se é que você ainda não percebeu.

- Já percebi, sim.

- Enquanto não rezarmos nessa nova cartilha, vamos permanecer no sereno assistindo pela janela os nossos pares ao pé da lareira comendo e bebendo do que deveria ser dividido conosco. Afinal, quem trabalha muito não tem tempo para pensar e muito menos para aparecer, não é mesmo? Se pelo menos não pegarmos uma gripe, ainda dá para o gasto. O importante é seguirmos adiante e preservarmos a nossa saúde.

E ela, definitivamente, não queria correr o risco de pegar uma gripe ou até mesmo uma pneumonia. A solução era sair logo deste sereno corporativo e, para isso, ela já vinha dando os seus pulinhos ao participar de alguns processos seletivos em busca de outras oportunidades fora dali e instava o Pablo a fazer o mesmo. Entretanto, só ela não sabia que a aparente inércia dele, que parecia tal e qual a do sapo dentro de uma panela com água fria, que por não perceber que o fogo havia sido ligado acabaria por ali morrer cozinhado, era apenas circunstancial. Ele iria resistir até o último instante, mas já sentia sim a água lhe queimando a pele e aguardava apenas o momento certo de saltar. Para onde? Ainda não tinha um plano B completo, mas sabia que iria saltar.

Ele deu uma nova olhada ao redor, distribuiu mais dois sorrisos para duas gerentes que acabaram de entrar pela porta que ficava ao seu lado e, apesar do misto de irritação e desânimo que as verdades ditas pela Alice tinham gerado, tentava ainda cultivar o pouco de animação que lhe restava, ainda que fosse de forma teatral.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora