Capítulo 2

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- Bom dia! O que você faz para ter sorte no ano novo?

A repórter sorria esbanjando uma alegria irritante para alguém que se enfiava na frente de um estranho, às sete horas da manhã de uma segunda-feira, sem pedir licença e com um microfone em punho, possivelmente para colher meia-dúzia de depoimentos que deveriam ser inseridos em alguma reportagem que passaria num desses programas vespertinos de televisão.

Pablo, que caminhava com o piloto automático ligado naquele que era o mesmíssimo passeio de todas as manhãs, parou subitamente com um enorme ponto de interrogação no rosto. Respirou fundo, fitou rapidamente o microfone e olhou para baixo para ver aonde o Murilo havia se enfiado, na esperança de que ele estivesse por perto e assim pudesse usá-lo como álibi para dar um drible na sorridente repórter. Em vão, pois como ele costumava passear sem coleira, já ia bem à frente, todo animado, dando aquele sprint inicial que todos os cães costumam dar nos primeiros cinco minutos de qualquer caminhada.

"Mais um sonho, meu Deus, só poder mais um sonho", pensou rapidamente enquanto fechava os olhos, mas quando os abriu novamente lá estavam o mesmo microfone, a mesma câmera e o mesmo sorriso irritante aguardando ansiosamente pela sua receita milagrosa de sorte para que neste novo ano só acontecessem coisas boas. Deu-se por vencido. "Falo sobre os girassóis?" - pensou, mas desistiu imediatamente. Olhou fixamente para a câmera, abriu um sorriso tão largo quanto sua boca lhe permitiu àquela hora da manhã e disse:

- Eu trabalho.

O irritante sorriso da repórter ficou amarelo e os seus lábios se mexeram timidamente para lhe dizer um último "Feliz Natal". Pablo sorriu satisfeito e, quando olhou à sua volta, viu o pequeno Murilo, todo esbaforido e com a língua para fora, vindo em sua direção com uma expressão preocupada e com os olhos questionadores do tipo "Por que parou? Quer atrasar o passeio e chegar tarde ao trabalho?".

- Estava dando uma entrevista, mas acho que eles não gostaram muito da resposta – desconversou.

Murilo balançou a cabecinha com um ar desolado do tipo "esse é o meu dono!" e, quando se virou para retomar a caminhada, sentiu o pé do Pablo dando-lhe o tradicional chute carinhoso no seu traseiro, que era a senha para seguirem adiante. Eles ainda viram a repórter, a cerca de vinte metros dali, colocando o microfone na boca de outro incauto qualquer e Pablo ficou imaginando o que levaria a repórter a crer que este realmente era um ótimo horário para se colher depoimentos sobre sorte. E, mesmo não assistindo mais televisão, até ficou curioso para saber em qual programa iria passar aquela matéria para checar se as outras respostas faziam algum sentido. No seu caso específico havia sim os girassóis, contudo era difícil explicar assim tão rapidamente, mas havia também o trabalhar duro, e muito, para que o que quer que fosse considerado como minimamente bom lhe acontecesse. De qualquer forma, pelo menos havia sido sincero e, se a matéria fosse ao ar, tanto melhor.

Terminaram a caminhada matutina e voltaram para casa. Enquanto o Murilo ia para a sua casinha na área de serviço para tomar água e comer um biscoito canino, Pablo foi para o banheiro fazer a barba e tomar banho. Antes de começar, porém, escolheu uma entre as suas dezenas de listas com um mix de punk rock como a trilha sonora do dia para tocar nas caixinhas de som ao lado do espelho.

- Yeah! – disse de olhos fechados assim que ouviu os primeiros acordes, segurando o barbeador elétrico em uma mão e o plug da tomada na outra, e por alguns instantes ficou ali diante do espelho tocando a sua guitarra virtual sentindo-se o próprio Johnny Ramone.

Após o show solo, já com a barba feita e de banho tomado, vestiu o seu melhor terno, que na verdade era o mesmo "terno de eventos" cinza-chumbo de sempre, só que desta vez acompanhado por uma camisa branca e uma gravata com tons predominantemente vermelhos com sutis riscas brancas, que ele usaria pela primeira vez.

"Ninguém repara que o terno é sempre o mesmo quando a camisa e a gravata são diferentes", ponderou mais uma vez tentando convencer-se diante do espelho após lembrar-se tardiamente que comprar um novo "terno de eventos" era a tarefa que havia programado para o último final de semana, mas que acabou se esquecendo sem muito esforço. Afinal de contas, o aconchego da sua cama era infinitamente muito mais agradável do que a tradicional confusão pré-natalina que invadia os corredores abarrotados dos shoppings naquele que havia sido o último sábado antes do Natal.

Ele trabalhava numa multinacional americana, onde teve uma rápida ascensão ao passar de estagiário a gerente sênior em menos de nove anos. A qualidade da entrega dos seus projetos era inquestionável e as suas avaliações sempre foram excelentes, mas como todo jovem de 30 anos ele queria mais - muito mais. Atualmente ele cuidava da reestruturação de todo o atendimento aos clientes da empresa e tinha acabado de implantar com sucesso um modelo de assistente virtual para dinamizar essa interação através do atendimento eletrônico e, é claro, reduzir os altos custos com pessoas e call-center.

Ainda assim, apesar dessa ascensão e de continuar com um ótimo desempenho no presente, seu futuro era extremamente duvidoso, pois vinha sendo preterido por outros gerentes mais bem relacionados para assumir uma das várias superintendências que estavam sofrendo a dança das cadeiras neste último ano. "Ainda não chegou a sua hora, garoto", dizia-lhe o diretor de RH com aquele sorriso típico das pessoas do RH, dando-lhe um tradicional tapinha nas costas como forma de apoio emocional para expressar simbolicamente que estava "ao seu lado".

Até aí tudo bem. Se a hora ainda não havia chegado e se esta promoção para um andar mais à cima permanecia em banho-maria, que pelo menos houvesse a equiparação salarial com os outros gerentes do mesmo nível, pois mesmo com os ótimos resultados obtidos pela filial brasileira, a empresa havia adotado um congelamento temporário nos salários e bonificações como uma das medidas para fechar o orçamento prometido para os acionistas naquele ano. E isto o incomodava muito, até mesmo porque, apesar deste discurso oficial de congelamento, havia chegado ao seu conhecimento a informação de que outras promoções haviam sido feitas neste mesmo período em outras áreas, bem como outros gerentes já estavam ganhando ações como bonificação, o que em teoria só deveria acontecer a partir dos cargos de superintendência. Sentia-se como um marido traído, que vinha suando sangue para entregar resultados em todos os trimestres desde a época de estagiário, mas que agora parecia ter se tornado como um pinguim de geladeira, estático, que olhava impotente todos os outros abrindo a porta da geladeira e servindo-se do que havia disponível. Sua desilusão e o descontentamento com a postura da empresa cresciam de forma acelerada e inversamente proporcional aos seus resultados, e assim o prazer com o trabalho havia ficado para escanteio dando vez apenas para a obrigação.

Mesmo assim, esta segunda-feira era o dia em que, uma vez por ano, sempre próximo ao Natal, todos os líderes de todos os setores da empresa se reuniam para uma grande celebração que tinha como ponto alto a apresentação do presidente fazendo um resumo do ano com os principais resultados obtidos através dos vários projetos que foram realizados e implementados nas diversas áreas. Além disso, tudo o que fosse apresentado pelo presidente neste evento para a filial brasileira serviria de base para o material que posteriormente seria apresentado para o comitê executivo internacional na matriz, que ficava nos Estados Unidos.

Portanto, era um dia para ver e ser visto, onde ele precisava estar impecável em todos os sentidos, pois o seu projeto não só deveria aparecer na apresentação do presidente como certamente deveria receber uma nota de destaque onde, talvez, seu nome até fosse citado. Desta forma, ele esperava sair dali com o nome muito mais fortalecido para essa tão sonhada promoção ou então que pelo menos as barreiras para que recebesse a justa equiparação salarial com relação aos seus pares fossem finalmente quebradas. Caso contrário, isto serviria como o empurrão que faltava para que tomasse coragem e, no novo ano que estava chegando, ele finalmente pulasse para fora dessa carruagem. Afinal, quando se perde o prazer e resta apenas a obrigação, ainda que muito bem remunerada, não deixa de ser uma forma de escravidão na qual o corpo e a mente certamente irão pagar um alto preço mais para frente.

Após quase dez anos de muita entrega e dedicação, trabalhando como nunca e entregando resultados como poucos, isto estava cada vez mais claro em sua cabeça, porém se recusava a admitir, mas sabia que de um jeito ou de outro o seu ciclo na empresa, que havia lhe dado a primeira oportunidade como estagiário, estaria irremediavelmente chegando ao fim. O que iria fazer ou para onde iria, ainda não fazia ideia, mas continuar representando esse papel de gerente de multinacional no palco da vida era algo que já estava com os dias contados.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora