EPÍLOGO

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Foi então, que eu acordei.
O quarto estava iluminado, feixes de luz invadiam as cortinas da janela, levantei e abri a mesma. O céu estava límpido e já era manhã, não havia nenhum sinal da suposta tempestade com a qual havia sonhado na noite anterior.

Eu havia dormido a noite inteira. Sim, tudo não passou de um sonho. Respirei fundo, meu corpo estava suado e todas as sensações que havia sentido ainda estavam em mim, vivas, como se tudo tivesse acontecido de verdade. Mas não, nada daquilo aconteceu. Eu continuava ali, sozinho, preso às lembranças que ela havia deixado. Havia se passado quatro anos, mas ela ainda permanecia em meu coração, e talvez, sempre permaneça. Porém, ela não tem a obrigação de corresponder ao que eu sinto, ninguém nunca tem. Sei que para ela eu sempre serei o filho do homem que ela amou e isso nunca irá mudar. 

De repente, todo o meu passado veio à tona, tudo o que aconteceu voltou a minha mente em poucos instantes. A morte da minha mãe. A decepção com o meu pai. Os meus sentimentos pela Lana que a cada dia, somente cresciam. A morte de Layla Galvão. O momento em que pensei ter perdido a Lana para sempre. A morte do meu pai.  A verdade sobre a morte da minha mãe. O outro lado da história que eu não conhecia. O momento em que Lana foi embora de verdade. Todas as lembranças que eu sempre quis esquecer, mas não podia, pois faz parte de quem eu sou. Fazem parte da minha vida.

Eu nunca a terei, talvez seja verdade. Ela não estará sempre aqui. A verdade muitas vezes pode doer, mas é melhor aceitar do que correr o risco de se enganar por toda uma vida.

Pessoas quebram promessas. Pessoas vêm e vão, mas você tem a si próprio; e por mais que se sinta só, você sempre terá com quem contar: Você mesmo. A vida não é um conto de fadas onde tudo acaba como queremos no final, nem tão pouco precisa de um motivo para fazer sentido. Ela não precisa ser compreendida, só precisa ser vivida. A vida é como um livro de poesias enigmáticas, incompreensíveis. O que faz sentido para você, pode não fazer para outra pessoa. Cada um o interpreta à sua maneira.

Viver nada mais é que refletir sobre os seus pensamentos, se colocar no lugar do outro, amar, se decepcionar, ajudar um amigo, abraçar os que amamos e se for preciso, fazer tudo outra vez. É ter a certeza que um dia iremos partir e que precisamos simplesmente, nos permitir. Essa é a graça da vida. Você não precisa forçar pessoas a permanecerem ao seu lado. Quando passei a entender isso, percebi que existem pessoas que sem o mínimo esforço, escolhem ficar. E acredite, às vezes o que você pensa ser o melhor para você, nem sempre é. O destino me provou isso.

Continuei ali, sentado na minha cama. A luz do sol que vinha da janela refletia no meu rosto, então deitei e fechei os olhos novamente. Meu corpo estava ali, mas minha mente vagava em diversos lugares, pensando em tudo, e ao mesmo tempo, não chegando em conclusão alguma. Aliás, eu não precisava chegar a nenhuma conclusão. As coisas acontecem pelo simples fato de acontecerem, não há exatamente um porquê.

A campainha tocou novamente, e dessa vez, eu não estava sonhando. Corri até a porta e assim que abri a mesma, uma garota de óculos escuros redondo e cabelos curtos, - que desta vez estavam lisos -, sorriu para mim. A mesma garota que esteve ao meu lado em todos os momentos de minha vida, desde criança. A mesma garota que nunca deixou de me apoiar nos momentos mais difíceis e que aguentou minhas piores fases. E eu sabia, ela estaria ali sempre que precisasse.

- Senti sua falta, Rick. - falou, abrindo o mesmo sorriso de menina de sempre. Ela continuava a mesma, embora sua aparência de garota tivesse dado lugar a de uma linda mulher. Ela estava mais radiante que o normal e havia mudado seu estilo também. Mas eu sabia que ela ainda era a mesma.

- Eu também. - sorri e em seguida a abracei, como todas as vezes que fazia quando não nos víamos há algum tempo - Você não me avisou que ia voltar hoje.

- Foi proposital. - falou e eu sorri, dando espaço para que entrasse. Nunca me senti tão bem em vê-la outra vez. - voltei hoje e minha tia viajou com o italiano, então, como não gosto de ficar sozinha em casa, achei que seria bom vir visitar o meu melhor amigo.

- Foi ótimo.

- Senti sua falta.

- Eu também. - sorri - Então, o que acha de jogarmos uma partida de xadrez? Depois podemos colocar umas séries em dias, se quiser. - sugeri.

Ela franziu o cenho e riu ao mesmo tempo, os olhos marejados parecendo  recordar de uma lembrança recente. Segurou minha mão como sempre fazíamos quando crianças e disse novamente:
- Eu realmente senti muita saudades.

O que aconteceu depois? Bom, posso dizer que mesmo depois de alguns anos, Alice continua sendo bem melhor que eu no xadrez. Depois de me derrotar em quase todas as partidas, ela contou do seu intercâmbio e escutou meu desabafo sobre o término do namoro com a Amanda e claro, o sonho maluco que tive com a Lana. Então ela me contou do término do seu namoro com o garoto que ela conheceu no intercâmbio, o qual morava no Canadá e não aceitou namorar à distância. E Como sempre, me escutou e me aconselhou em tudo. Aliás, ela é muito boa nisso. Não nos víamos há quase dois anos, mas o tempo não mudou em nada a nossa amizade. Eu sabia que podia contar com ela para o que quer que fosse. E que poderíamos conversar sobre tudo também. Pensando bem, eu nunca estive sozinho de verdade, embora sentisse que estava.

Quem realmente se importa sempre lembrará de você e mesmo que a pessoa esteja longe, você sabe que sempre poderá contar com ela. Quando nos permitimos viver e entender o real sentido da vida, entendemos que a cada novo dia temos um motivo para continuar, se tentarmos enxergar além daquilo que os nossos olhos podem ver.

Acredite, sempre há algo pelo qual nós devemos continuar. Sempre haverá uma nova razão para sorrir e acreditar que a vida vale a pena.


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FIM

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