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Nascer para assassinar o próprio pai é, provavelmente, o mais cruel de todos os destinos. Quando a Feiticeira Catrina anunciou que o Rei de Âmina seria morto por minha espada, fiz todo o possível para contradizê-la. O destino, entretanto, é imperativo e não poupa ninguém.

Sou Aléssia Valentina de Amaranto O'Líath, filha de Maura Alexandrina O'Líath e Aran de Amaranto, legítima herdeira do trono de Âmina. Por muito tempo fui conhecida apenas como Aléssia Valentina de Amaranto: o nome de minha mãe me foi tirado após sua morte.

Passei a juventude enclausurada no Castelo de Três Círculos, conforme a tradição de meu povo. O que significa que cresci confortavelmente afastada da realidade e, embora me julgasse culta e muito esperta, era a mais infeliz dos ignorantes.

O Castelo de Três Círculos foi construído por meus ancestrais. Desde sua construção nunca foi tomado de assalto. É inexpugnável. Quem tentou conquistá-lo, morreu na tentativa.

Cresci em um raro momento de paz na história de nosso Reino, o que me proporcionou uma infância feliz. Provavelmente por isso doeu tanto quando, no início da juventude, descobri a verdade sobre minha família.

Meu pai era um tirano. Isso, por si só, já não é uma coisa fácil de aceitar. No meu caso, que cresci cercada de mimos, é particularmente difícil. Não vou inventar que Rei Aran era um péssimo pai para que isso me sirva de atenuante. Comigo ele sempre foi apenas gentileza, carinho e atenção. E eu o amava muito.

A primeira imagem que tenho dele é de um homem galante, vestido com as cores de nosso reino, entrando a galope pelo portão principal do castelo. Eu devia ter uns cinco anos. Estava em meu quarto, no segundo andar da casa principal. Meu pai viajara há mais de uma semana, eu sentia uma saudade horrível. Conquanto os criados fossem sempre muito atenciosos, e por mais que a companhia de Amaryllis me fosse agradável, nada substituía a presença dele. Então, quando ouvi os gritos de abram os portões, meu coração deu piruetas de alegria. Corri para a janela e lá estava ele, o elmo dourado reluzente ao sol, entrando a galope com sua comitiva. Os soldados vestidos com roupas de festa, as bandeirolas coloridas, tudo muito bonito. Desci correndo pelas escadas e voei pelo pátio em direção a seus braços.

Meu Rei. Meu herói. Meu pai!

O mundo girava e nós éramos o centro. A barba levemente áspera de meu pai causava cócegas no meu rosto. Seu cheiro forte de homem, o calor e segurança de seus braços sustentando meu corpo no alto enquanto rodávamos em frenética alegria. Don Otto, um dos conselheiros do reino, chegou pigarreando, querendo atenção.

— Agora, não, Otto, a Princesa e eu temos assuntos urgentes para tratar.

— Desculpe-me, Majestade, mas creio que as providências que precisam ser tomadas são...

— DEPOIS, OTTO! — seu grito me fez estremecer por um segundo, então ele afagou meus cabelos vermelhos, beijou minha testa e continuou — Depois, eu já disse. Marque uma reunião para amanhã. Minhas próximas horas são de Aléssia, e não há nada no reino que não possa esperar.

Não sei o que havia de urgente mas, seja o que for, esperou bem mais do que algumas horas. Gastamos os dias seguintes em muitas brincadeiras pelo campo. Fui liberada de minhas atividades educacionais, enquanto o próprio Rei evitava seus conselheiros. Só depois retomamos a rotina. Sempre com o cuidado de haver um tempo nosso. Minha entrada no gabinete era liberada, por mais séria que fosse a reunião. E no fim das tardes brincávamos no campo ou na biblioteca.

E não era só de meu lazer que o Rei se ocupava pessoalmente. Sua presença era constante em todos os setores de minha vida. Apesar de todas as responsabilidades e compromissos, Rei Aran nunca delegou a terceiros minha educação. Podemos considerar que meu pai era meu mentor e que, tanto meu tutor quanto professores, eram executores dos planos traçados por ele.

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