09 - 11/9 - Parte 3

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- Acho que ela vai dormir o dia todo. - Anne avisa Ruma ao sair de uma das cabanas, na qual, Micaela está deitada descansando coberta com um manto felpudo branco.
- O dia anterior não foi fácil pra ninguém. Muito menos pra ela. - Ruma justifica o sono da jovem boliviana enquanto anda em passos ligeiros.
- O que você acha que aconteceu com ela? Tipo, ela parecia estar a ver algo que nenhuma outra pessoa via. Alice disse que ela falou de morte, sangue e blá blá blá. - Isso causa uma pausa brusca e inesperada na caminhada da auxiliar direta de Lura. A sua pele negra parece ainda mais bela com o suor sobre ela e a sua pressa solícita orna o seu caráter. Pelo menos, é isso o que Anne acaba pensando. Sente que pode confiar nela. Ruma se vira e, olhando profundamente nos olhos da hacker finlandesa, comunica:
- Não pense sobre isso agora, ok? Nem queira saber. Nem pergunte a Micaela, ela precisa se esquecer do que quer que ela tenha visto.
- Então, você sabe. - Anne conclui dando um sorriso de canto como alguém orgulhoso de seu feito. Sim, Ruma sabe o que Micaela viu.
- Vamos voltar ao trabalho de ajudar os sobreviventes. Você precisa consertar umas luminárias quebradas, uns aquecedores que estão oscilantes. Tudo isso para esta noite, porque eu acho que será fri...
- O que mais será que vocês não estão contando? - Anne a interrompe, encolhe os ombros e dá uma piscadela. Isso tudo rouba as palavras de Ruma.
- Tá vendo? Nem consegue falar. Onde estão as luminárias, as maquininhas com as quais eu preciso falar? - Antes de responder Anne, Ruma se recompõe discretamente e afirma:
- Não desconfie de nós. Não somos o mal. Você pode ver isso com os próprios olhos. Veja o que o norte fez com a gente. Aniquilou crianças, famílias, animais.
- O norte é do malzão. Mas alguém que me mandou matar a Dulan tá por aí e ninguém diz saber de quem se trata. Será mesmo que vocês não sabem? - Anne perde um pouco da postura defensiva e mostra fragilidade no olhar.
- Tudo vai ficar bem, Anne. Eu prometo. Agora... Vamos?

*

2 ANOS ATRÁS

Mãos dadas, noite de garoa fina, encanto nos olhos.
- Nunca pensei que eu aceitaria isso.
- Isso o que, Anne?
- Ser namoradinha, andar de mãos dadas por aí. Eu achava tudo isso uma tremenda mentira. Uma babaquice, pra falar a verdade.
- Eu também, idiota. Eu achava o mesmo. Mas - Erkki se vira de frente para a garota, entrelaça os dedos ainda mais, e lhe dá um selinho.
- Isso aqui era outra coisa que eu achava idiotice, carênia de Homo Sapiens mas que é boa pra caramba. - Ela o puxa contra o seu corpo e o beija calorosamente.

*

Numa outra noite de garoa, Anne levou o primeiro murro após contestar os serviços de Erkki. Foi um soco na barriga. Faltou-lhe o ar, sugou-lhe a fé. Foi a primeira vez de muitas.

*

Quando Anne lembra dessas cenas, até hoje lhe sobe uma ânsia. Ela beijava um monstro, acariciava um demônio. Tanto confiou no cara e ele não deu valor algum a isso. A sua confiança nos outros foi jogada ao chão, de um muro foi para migalhas tímidas.

*
Numa árvore, uma corda num perfeito nó para enforcamento balança devido a um leve e rápido golpe do vento.
- Então, é pra caçar que você fez isso? - A menina questiona Sonia. As duas estão sentadas no chão de terra da floresta.
- Sim... É um jeito bem eficiente de caçar.
- Eu não gosto que matem animais.
- Precisamos nos alimentar.
- Existem frutas para isso.
- Shh.
- O que isso quer dizer?
- O que?
- Esse som que você fez com a boca.
- É para a outra pessoa ficar quieta.
- Você é bem quieta, não é?
- Meu Deus, e como você fala! Até me lembra da minh... - Sonia engole seco.
- De quem?
- De ninguém.
- Hm. - A garotinha se perde em alguns pensamentos que a afastam daquele lugar por um instante. Até que:
- Mas qual animal você pretende caçar com essa corda? - A russa não consegue responder a essa pergunta. Os seus olhos estão fixos na corda e a mente perdida na imagem de sua filha aos 4 anos com o cabelo ao vento, fascinada com a neve.  As suas mãos seguravam as dela, enquanto giravam debaixo do sol de inverno. Tempos longíquos, quase eternos de tão intocáveis. Os dias que passou com a sua pequena tagarela.

*

- Eu sou fraca.
- Até quando você vai repetir isso? - Alice, finalmente, levantou-se indignada. - Tem gente lá fora precisando de ajuda real enquanto você está aqui se lamentando.
- Tente me entender.
- Eu a entendo, Ollie! E eu entendo que você não pode ficar prostrada desse jeito.
- Eu estou muito, muito decepcionada comigo mesma. - Olívia se levanta. - Eu não sou essa mulher forte, essa líder que eu sempre tento ser.

*
Na mente dela, flashes de ela e Martha fugindo do hospital em Galliomenese, e ela não se importando de voltar pelas outras e tendo que ser convencida pela Sete sul-africana.

*
- Eu tendo a sempre fugir. Sempre. - Os olhos de Olívia ficam marejados.

*

11 de Setembro de 2001

- Por favor, Ollie! Por favor! - Kimberly está gritando de dentro de um elevador entreaberto, enquanto a sua irmã escapa por essa abertura.

O prédio já foi atacado por um dos aviões. Houve queda de energia. O edifício está entre tremores e falhas de energia. Deixando o clamor da irmã para trás, Olívia chega a saída do prédio. Não para de correr. Só se lembra de Kim quando viu, ao longe, a primeira torre vir ao chão. Olívia desmaiou de angústia. Minha irmã... Ó, a minha irmã.

*

  Uma agitação corre ao redor da cabana onde Olívia e Alice estão.
- Deve ser mais uma equipe de busca indo atrás de possíveis sobreviventes.
- Você está tentando me forçar a ir com eles, né?
- Eu não estou te forçando a nada. - Alice se aproxima.
- Olha lá, não venha usar em mim aquelas luzes coloridas que você usa pra manipular a Micaela.
- Olívia! Não estou tentando te controlar! Eu só não quero que você fuja outra vez... Porque eu sinto - A brasileira toca suavemente o busto da outra. - Eu sinto que você não quer mais fugir. Bem lá no fundo, é isso que você tem tentado fazer.
Uma lágrima escorre dos olhos de Olívia. Então, ela desaba em muitas outras lágrimas e Alice a envolve em um abraço cheio de compaixão.
- Eu sei que você se sente culpada, que você se sente só e perdida. Que se sente fraca! Que sente muita falta da única família que te restou... O seu noivo. Porque você e a sua mãe não se falam mais, porque ela a culpa.
O choro de Olívia aumenta. Alice também começa a prantear ao sentir a dor da Sete de Chicago:
- Eu sei que no fundo você não quer mais fugir, mas se sente assustada consigo mesma. Mas, Ollie, está na hora de não fugir mais. Não fuja mais. As pessoas que nós amamos precisam de nós, lá na Terra... E pessoas precisam de nós aqui. Nós somos especiais. Mulheres de diferentes idades e nacionalidades que vieram parar num lugar e agora têm habilidades que podem ajudar os outros. As pessoas precisam da gente. E eu sei que você quer acertar dessa vez.
- Gente... Desculpa atrapalhar o novelão, mas estão saindo em busca dos sobreviventes perdidos. Precisam da gente. - Ruth aparece na entrada da tenda.
Alice retira o abraço de Olívia, olha fundo nos olhos dela e diz:
- Vamos?

*

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now