Só Uma Espécie de Mágica

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O que tinha esse lugar de tão especial para ser restaurado por um Tesserato renegado? Queria saber a feiticeira caolha enquanto tentava enxergar pelos dois olhos. Um desses olhos, humano, via o Verso, o lugar onde ela estava. O outro olho, perdido para uma escuridão além do mais profundo abismo, enxergava o Multiverso, as Linhas, o Emaranhado todo, o Caos que governava a Vida.

Andando em frente, caminhando o mais rápido que podia, passos bamboleantes, mas decididos, por entre árvores muito maiores que a maior sequoia da Terra, seguia a bruxa, embrulhada nos mantos que um dia pertenceram à Rainha de todas as rainhas, e que agora eram panos velhos, enfeitiçados, poderosos, ainda úteis, mas velhos. Ela via, com o olho de gente, a grande Floresta Zero que abarcava tudo ali; resolvera chamar assim aquele Verso, era um bom nome, simples, e os Zeros, quando sentiram o nome que ela deu, no fundo de suas mentes eles aprovaram. Todas as crianças-zero pelo menos gostaram, pois o aceitaram como deveria ser, como se sempre tivesse sido chamado assim, ela tinha esse poder, de dar nomes definitivos aos Versos se estes ainda não o tivessem.

Já com o olho penumbroso a feiticeira via as teias do Caos se sobrepondo mundos afora, a partir daquele ali, e de todos ao mesmo tempo. As Linhas se entrecruzavam com uma tal vibração selvagem e arcana, rompendo-se e recompondo ligações numa tal vertiginosa rapidez, que somente ela, velha, velha, muito velha, conseguia arrancar juízo daquilo. Suas mãos as vezes escapavam de suas vestes antigas, e se agitavam, tirando folhas e antigos cipós de seu caminho, enquanto ela seguia em frente, e sua cabeça girava, vigilante, pois sabia que podia ter problemas com as Aranhas-Estrela que corriam no zênite feito meteoritos, ou com as Aranhas-Raiz, que espreitavam nas sombras, sentindo o poder da bruxa de longe. Outras vezes as mãos dela corriam por dentro de suas massas de tecidos (ou algo que parecia muito com tecidos), remexendo suas feitiçarias lá dentro. Notava-se um certo equilíbrio, na maioria das vezes era o olho humano que trazia as mãos da feiticeira para fora, e o olho obscuro que as levava para dentro. O olho humano estava mostrando a ela a beleza e o horror daquele lugar que o Tesserato trouxe de novo a vida, observava com deleite cada raiz, cada inseto, cada gota de orvalho, cada sombra selvagem e predadora que se agitava entre ramos e troncos gigantescos. O olho perdido para a Treva Mais Antiga via as bordas das coisas, justo onde se escondiam os melhores acessos às Linhas, via como as Linhas se abriam, respirando, solfejando, vibrantes de potencial, prontas para levar o sapiente-de-como-se-faz por toda a vasta criação do Multiverso, como veias, ou melhor, neurônios. Neurônios que nos levam, pensamentos cientes de si mesmos, pelos infindáveis oceanos de Versos.

A bruxa parou. Havia um barranquinho todo costurado por grandes raízes lustrosas e ancestrais bem na sua frente, coberto por um delicado tapete de algo que parecia grama tocada por estranha brisa, ou talvez uma camada viva de pequeníssimos trevos alienígenas coleantes. Na borda de umas flores que brotavam no canto do tapete verde, jazia o suspiro de uma Linha, um suspiro bem suave e natural. Daí a bruxa percebeu, agora claramente, que havia encontrado, finalmente, bem ali, um acesso ao Mundo Mais de Cima, onde estava a grande nascente do Multiverso, onde as Linhas às vezes espocavam quando eram abertas, onde estavam os Redesenhistas que o pequeno Tesserato tanto queria encontrar, e onde ela, a velha bruxa, havia encontrado o que queria, o que tinha procurado por tanto tempo naquela selva sem fim. Certa menininha, sozinha, irmã dos Redesenhistas, ela própria uma Redesenhista também, ao seu modo.

A feiticeira remexeu em seus embrulhos, por dentro de seus panos, fez algo. E este algo fez alguma coisa antiga reluzir lá dentro, um Artefato escondido, talvez, e ela fixou olhar no encontro da pétala de uma das flores com a atmosfera úmida da floresta, e olhou intensamente para aquela fronteira sutil, entre a flor e o ar, até seu olhos humano quase secar, e então seu olho trevoso viu a Linha se estendendo, abrindo-se, o tempo-espaço se curvando infinitamente, infinitamente... E a bruxa atravessou aquela Linha, voltando ao Mundo Mais de Cima, ao Primeiro Verso, e fez esta jornada sorrindo aquele sorriso de quem apronta alguma coisa.

...

(A escrever...)

O Tesserato - A Linha de Mistério e FogoLeia esta história GRATUITAMENTE!