O Virtuose

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A cidade de Salvador seria difícil de reconhecer para alguém que a viu no início do século XXI. Mesmo os pontos turísticos, que ainda recebiam turistas presenciais e virtuais, eram percebidos de modo diverso. Ainda se via, vez por outra, turistas adeptos a fazer fotografias, mas a massa, possuidora de biochips ou apenas ciber-lentes, fazia holofilmes ou se engajavam em simulações de realidade aumentada. O que alguém via, quando olhava para o casario do pelourinho, variava de acordo com os filtros aplicados. Além de turistas, a maior parte dos lugares públicos do mundo também serviam de cenário para jogos em ambiente virtual ou semi-virtual.

No meio daquela confusão toda, estava Afonso, aguardando seu pedido feito numa tradicional sorveteria que funcionava ali desde o início do século XX. Bem, algumas coisas não mudam, nem mesmo depois de alguns séculos. Parecia fazer parte da tradição a demora para ser atendido. A pedida era um sorvete na taça com nome americano acompanhado de um tradicional bolinho coberto com mix de sementes trituradas. Afonso recebeu as iguarias e as consumiu, sentindo-se bem, apenas por alguns momentos. Ele escolhia ir até aquele lugar infestado de gente, para ter alguns momentos de sossego.

Afonso tinha tudo que uma pessoa de classe média-alta poderia querer: excelentes implantes, uma linda esposa, lindos filhos, um apartamento amplo e bem decorado, um aerocarro automatizado, um trabalho que pagava bem, etc. Mas, sofria com um tipo de doença mental: a insatisfação crônica consigo mesmo. Anos vivendo angustiado, e sem ter com quem conversar sobre suas angústias, além de seu psiquiatra, o levou a tomar uma decisão: instalar um happychip.

Aquilo era vendido como o caminho, sem volta, para a felicidade. Ele examinou o contrato, inclusive as linhas pequenas, e achou que valeria a pena. Sua esposa já usava um, e os filhos, quando tivessem idade, provavelmente usariam. Os antigos problemas de compatibilidade entre diferentes tipos de implante, não eram uma grande preocupação. O percentual de pessoas afetadas era ínfima, mas existia.

Já havia dois anos que ele tivera o chip implantado, os dois primeiros meses, foram algo como a ida ao paraíso. Tudo que antes, parecia ter alguma falha, algo que faltava, ficou perfeito. Ele não se questionava mais. Depois, ele voltou a ser, quase como antes.

Observava seus filhos brincando, os achava lindos e, durante aqueles minutos, era plenamente feliz. Mas então, precisava sair, ir trabalhar. Assistia as notícias no aerocarro, chegava ao seu lugar de trabalho e a miséria começava. Ele entendia o que fazia, fazia bem, era reconhecido por isso, mas ainda assim, não enxergava sentido no que fazia no trabalho.

Pesquisou muito e descobriu que o atual índice de percepção de falta de sentido no trabalho era bastante elevado, afetando 92,37% da população mundial. Mas isso não constituía problema algum, pois boa parte das pessoas possuíam happychips, e estes as faziam ignorar tais fatos. Outra parte, encontrava sentido para vida em outras coisas, fora do trabalho, e acabavam relevando a falta de sentido em seus trabalhos. Mas não com ele. Isso era uma grande questão. Era um raro caso de portador de happychip diagnosticado com depressão melancólica suave.

Recebeu uma gorda indenização por isso, mas não havia mais o que pudesse ser feito pela companhia. Depois de meditar sobre o assunto, concluiu, analisando os dados de sua volumetria emocional, que manter o happychip era vantajoso. Estava em média, mais 30% contente do que antes da implantação do chip.

Afonso não conseguia deixar de pensar em seu pai. Ele era adepto do meio de vida chipless. Viveu numa pequena propriedade que produzia alimentos orgânicos. Uma das melhores lembranças dele era de, ainda criança, subir no cangote de seu pai para melhor enxergar a plantação. Aquele ar puro, os sons da natureza, algo de que sentia muita falta. Gostava de levar os filhos para hotéis fazenda, nas férias, mas a esposa não gostava muito. Sua vida era fazer concessões, em casa, no trabalho, para os filhos... Então, sempre dividiam as férias. Um tempo no campo e um tempo fazendo alguma viagem internacional.

A mãe de Afonso, fora seduzida, por um tempo, pela ideologia chipless, e apesar de já possuir dois implantes, viveu com o pai dele por seis anos, até que a relação se desgastou e se separaram. Afonso foi para a cidade grande com a mãe e lá, apesar dos protestos do pai, não demorou a receber os implantes que seriam importantes para sua vida escolar e profissional.

Afonso meditava sobre o paradoxo que vivia. E detestava aquilo. Como podia ser tão afortunado? Ter todas as coisas que alguém poderia querer e até um chip de felicidade, e ainda assim, permanecer infeliz? Era ilógico e irritante, mas era a verdade. Ele, conseguia, no entanto, camuflar isso bem. Sua esposa e filhos mal notavam, exceto um temperamento levemente ranzinza, considerado aceitável. Parecia ser um sujeito normal e feliz. Afonso tornou-se obcecado por meio de encontrar a felicidade. Tentou meditação, mergulhar em doutrinas espiritualistas, sem alcançar grande resultado.

Um dia, soube de uma novidade. Algo muito caro e excêntrico: a possibilidade contratar um concerto pessoal ao grande maestro e também pop-star Maverick Guarnieri. Guarnieri era um exemplo de músico, cantor e compositor virtuose que só era possível devido a avanços tecnológicos dos últimos trinta anos. Chips de coprocessamento musical, já existiam há muito tempo, e eram usados pela maioria dos músicos do mundo. Mas o chip que Guarnieri usava, foi especialmente encomendado e desenvolvido sob medida. Ele queria combinar toda habilidade que já possuía, com a capacidade de entregar uma experiência musical singular que usava uma leitura da base de dados de gostos, experiências de vida e preferências da audiência, para compor obras personalizadas e também executar improvisações com auxílio de motor de feedback. Ele se conectava às audiências para perceber as emoções provocadas pela sua música e fazer correções e improvisações ainda durante a execução das peças.

Havia um tipo de show, chamado de Concerto Espiritual, que o músico alegava que tocaria o fundo da alma do ouvinte. Para isso, quem quisesse tal espetáculo, teria de dispor de uma quantia obscena de créditos para encomendar um concerto personalizado. Que além da experiência musical, usava holofilmes de imersão. Um Concerto Espiritual, precisava de semanas, algumas vezes, meses para ser preparado. Afonso usou as economias e o dinheiro da indenização para contratar o serviço.

O dia estava chegando. Afonso estava ansioso. Viajou para Florianópolis, para receber o concerto na casa do artista. O maestro contava com uma equipe grande de outros músicos, dançarinos, artistas e técnicos de computação holográfica.

Ainda no avião, Afonso recebeu um vídeo que explicava o programa. Era um concerto longo, com quase duas horas de duração e custara uma pequena fortuna. Havia algumas peças clássicas, passando por Beethoven, Bàrtok, Jobim, Bowie, McCartney, Uematsu, Hidelbrando e Pukk-Naba-Tamu. Em também várias composições originais que misturavam os estilos preferidos por Afonso, extraídos das playlists que ouvia desde a infância, e de músicas que tocavam em momentos-chave de sua vida.

O concerto, como esperado, foi maravilhoso. Afonso se derreteu em lágrimas, era tal a bomba emocional, que nem se comparava a eventos importantes, como o nascimento de seus filhos. A verdade, é que foi um momento de transcendência para aquele homem. Em que tudo fez sentido. Ficou claro que, se ele fosse feliz, que se o happychip tivesse alcançado êxito, ele nunca teria encomendado o concerto a Maverick Guarnieri. E experiência, a Epifânia, foi tão grande, que saindo dali, ele tomou coragem e mudou muitas coisas em sua vida.

Abandonou o emprego sem sentido, recusou dezenas de propostas de trabalho em sua área, que também tornar-se-iam sem sentido. Voltou ao velho sítio de seu falecido pai, comprou a propriedade, e ali, começou um novo negócio. Fez cirurgias para remover seus implantes, acabou se divorciando no processo. A esposa, sentiu-se lesada e processou a companhia de Guarnieri, alegando que o concerto teria deixado o marido louco.

Mas a verdade é que antes ele estava louco. E agora, curado, sentia-se novamente feliz.  

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