And I love you so

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"The book of life is brief. Once a page is read, all but love is dead, this is my reflief"



"O livro da vida é breve. Uma vez que uma página é lida, todo amor está morto, é nisto que eu acredito"


Caminho entre bonecos de plástico. Eles não têm alma, porque a alma só pode habitar onde há um coração - e o coração dos bonecos fugiu do peito, através de uma fenda aberta pela futilidade. Minha alma grita que deveriam ser avaliados pela pureza de sentimentos que trouxessem dentro de si, que o que são de verdade deveria valer mais do que qualquer peça de roupa bordada com ouro e costurada com mão de obra semi-escrava; que as emoções deveriam valer mais que os calçados desenhados pelo boneco-mor cuja imagem estampa a capa da revista e as redes sociais. Mas são bonecos, não têm alma. Tudo o que têm são imagens de vidas aperfeiçoadas, ilustradas pelas lentes dos celulares, corrigidas pelos filtros de perfeição momentânea e incompleta, que acaba no momento em que eles clicam em enviar. A internet, como o papel, aceita tudo: o que é verdadeiro e perene, o que é ilusório e descartável.


Ele não conseguia se lembrar de quando tinha sido a última vez que alguém tinha olhado para ele e visto quem ele era de verdade. Os textos de Allegra Presley eram um tapa na cara que o traziam de volta à realidade, de volta à essência que ele tinha aprendido a construir com os avós, que já não estavam mais entre nós. A imagem compartilhada em todas as redes - e ele tinha perfil em todas elas - nem sempre correspondia aos sentimentos que ele tinha no momento. Eram exatamente o que ela descrevia: ilusões descartáveis.

Lembrou-se de quando era adolescente, quando o dinheiro era menor e ele não podia usufruir da imagem que a vida tinha construído para ele.

"Ei, malaco! Não tem dinheiro pra comprar uns tênis que prestem?"

Olhou para o garoto que lhe encarava com cara de bem poucos amigos. Desviou os olhos e seguiu, descendo a ladeira até o ponto de ônibus que lhe aguardava todos os dias.

"Qualé, mano. Não vai nem responder?"

O que ele poderia responder? Qualquer coisa que dissesse poderia (e seria) usada contra ele. O garoto vestia uma camiseta de um time americano de basquete, que custava os olhos da cara, bermudas jeans largas, com uma baita corrente presa ao passadores do cós, e tênis cujo valor daria para alimentar sua família por um mês inteiro.

Apressou o passo, sempre atento aos movimentos do seu oponente: sabia do que ele seria capaz, e não queria apanhar pelo simples motivo de não usar roupas ou calçados de marca. A ansiedade lhe enchia os pulmões, e ele tentava não correr - mas correria, se preciso fosse. Ao longe, viu o ônibus se aproximar. Encarou o motorista nos olhos, mesmo à distância, como se pudesse fazê-lo apressar a vinda, para que ele conseguisse, por fim, se livrar do garoto que não precisaria de nada além de uma resposta para começar uma briga. Acenou para que o ônibus parasse. No ponto, outros garotos da mesma idade, com mochilas nas costas e uniformes escolares, levantaram-se para subir na condução. Levou o polegar à boca, roendo o cantinho da cutícula.

Embarcou, pagou a passagem e passou pela roleta. Só então percebeu que sua respiração tinha estado presa e, aos poucos, normalizou o fluxo de ar, enquanto caminhava para o fim do corredor. Pela janela lateral, viu o garoto com camisa de basquete faiscar os olhos com uma raiva única, como um pitbull de briga ou um galo de rinha, pronto a atacar. Não tinha sido dessa vez, por enquanto.

Afastando as lembranças, ele voltou a olhar a tela do computador. O nome Allegra Presley não constava em nenhuma rede social: a única referência a sua existência era uma conta no Wattpad, com um desenho feito a mão em vez de uma foto no perfil, e os textos que ela escrevia que o deixavam cada vez mais encantado. Sorriu ao imaginar que, das duas, uma: ou ela realmente vivia cada uma das palavras que diziam que a vida virtual não era para ela, ou aquele era um nome falso, um pseudônimo desses que os escritores criam quando não querem ser descobertos. Uma terceira opção surgiu-lhe a mente: talvez fosse as duas coisas - era um pseudônimo e ela não possuía nenhuma rede social.

Imaginou como seria conhecer alguém que não reconhecesse a imagem dele. Alguém que conversasse com ele e, aos poucos, fosse descobrindo o que ele pensava, o que ele sentia, o que ele tinha a transmitir. Alguém que não o julgasse pelas coisas que eu já tinha publicado nas redes. Alguém que não soubesse com o que ele trabalhava, nem ficasse imaginando o quanto ele recebia de royalties. Talvez Allegra Presley fosse essa pessoa - ele só precisava de uma chance para conhecê-la pessoalmente.

Abriu o editor de textos e começou a digitar:


Allegra,

Sou Orfeu e você, minha Eurídice. Assim como na mitologia, sei que não posso encontrar a felicidade enquanto não puder tê-la marcando a íris dos meus olhos. Sinto-me andando nas sombras, resgatando o amor das profundezas do mundo de Hades, proibido de contemplar a imagem da minha amada enquanto não estiver novamente sob a luz do mundo. A tentação de olhar para trás e procurá-la em meio à escuridão é grande, mas há que se aprender com os erros do passado: Orfeu perdeu Eurídice para sempre quando desobedeceu às ordens de esperá-la, e eu não quero perdê-la antes mesmo de possuí-la. Se é preciso passar pelas sombras para poder conhecê-la quando chegarmos à luz, eu aguardo ansioso que a ampulheta de Chronos despeje as areias que forem necessárias até que este dia chegue.

Seu,

Orfeu


Ele relia a carta, verificando se ela dizia exatamente o que ele esperava dizer, quando uma voz na porta o chamou:

"Bora comer que a pizza chegou."

Clicou no navegador de internet, cujo email estava aberto. Clicou em nova mensagem e colou o texto que tinha digitado, enviando-o em seguida, antes de seguir a voz que o chamava.


***

P.s.: O título original é "The book of life is brief...", mas o Wattpad restringe os caracteres nos títulos de capítulos. O título que consta aqui é o nome da música do Elvis de onde os versos do título foram tirados. <3

***

E aí, quem será o admirador secreto por trás do codinome Orfeu Apaixonado?

***

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