You ain't nothing but a hound dog, crying all the time

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"você não é nada além de um cachorro de caça, chorando o tempo todo"


"Está aqui, Allegra. Chegou ontem na loja."

Liandra lhe entregou um pacote, embrulhado em papel pardo. Quando Allegra o abriu, seu sorriso também se abriu: as estampas de borboletas azuis se espalhavam pelo fundo ocre do tecido, numa combinação única.

"Ah, essa minha traficante de tecidos mais maravilhosa do mundo!" Allegra olhou a etiqueta com o valor, buscou na bolsa sua carteira. "Eu só não entendo, Liandra, como é que uma poeta tão maravilhosa como você continua trabalhando como vendedora numa lojinha. É um desperdício tão grande..."

"Eu poderia devolver a pergunta a você: por que você continua editando os vídeos do Youtube para as suas irmãs, se poderia estar escrevendo livros?"

"É o que eu vivo dizendo!", se meteu Verônica.

"É diferente", justificou-se Allegra. "Eu dependo do dinheiro delas para sobreviver. Se elas não conseguirem boas parcerias, se o trabalho ficar mal feito, eu vou ficar sem dinheiro."

"Mesma coisa comigo. Também dependo do salário da loja para pagar a faculdade. Meus pais não têm como me ajudar nessa."

Allegra esticou o tecido em frente ao corpo, tentando mudar o foco da conversa:

"Esse tecido vai ficar lindo num vestido acinturado de saia godê. Se eu conseguir completar com uma gola redondinha, no melhor estilo Jackie O, vai ficar perfeito!"

"Allegra é a fofinha mais estilosa que eu já conheci na vida! Tem um bom gosto como poucas", elogiou Paulo.

"Epa! Fofinha, não. Gorda."

Paulo arregalou os olhos, assustado com a correção feita pela própria Allegra:

"Desculpa. Acho que gorda parece tão grosseiro."

"Vai começar a guerra!", declarou Verônica, rindo.

"Gordo, magro, alto, baixo... são só características físicas, Paulo. A gente não precisa ter medo das palavras. O que não pode é usar isso como arma contra as pessoas."

"Não era minha intenção."

"Sei que não. Mas, já diz minha professora de linguística, a cultura de um povo se faz pela língua. Logo, precisamos romper com algumas amarras."

"Nada de chamar as gordas de fofinhas de novo, né, Paulo?", provocou Verônica.

"Mas eu não fiz nada demais. Não estou muito preocupado em ser politicamente correto o tempo todo", defendeu-se ele.

"Politicamente, não. Mas precisa tentar ser correto", Verônica insistiu.

"Assim como você, que não para de corrigir os outros?"

"E o que é que você tem a ver com isso?"

"A partir do momento que isso me atinge, tenho tudo."

Já era quase hora de ir embora, e Allegra não queria que eles ficassem nesse clima de discussão até o dia seguinte. A gente nunca deveria se despedir de alguém estando brigado, afinal, nunca se sabia o que poderia acontecer.

"Deixem disso, vocês dois. Se eu soubesse que ia gerar discussão, eu não teria falado nada." Verônica levantou as sobrancelhas e inclinou a cabeça em direção a Paulo, como quem dissesse viu? "Pelo menos, não na frente dos dois juntos."

Paulo não conseguiu esconder um sorrisinho sacana nos lábios.

"Parem de se provocar com essas caretas", interferiu Allegra. "Façam as pazes." Paulo e Verônica se olharam entre si, encarando Allegra depois. "Vamos. Apertem as mãos como duas pessoas civilizadas."

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