Come on, baby, I'm tired of talking

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"Vem aqui, baby, estou cansado de conversar"


Como assim, não sabia do que ela estava falando?

"Esse aqui é o edifício Mirage, certo?"

"Sim, senhorita."

"Minhas irmãs são youtubers, moço. São do canal Be Twins. Duas moças negras, altas, magras... parecem duas modelos. E estão aqui, hoje, numa festa de youtubers. Eu só preciso entregar uma encomenda pra elas."

"Sinto muito, senhorita. Já lhe disse que não sei do que se trata."

Allegra levantou a cabeça aos céus e bufou. Definitivamente, não era o seu melhor dia. Apoiou as duas mãos na cintura, tentando raciocinar. A memória dela era ótima: não costumava se esquecer de nenhuma informação. Olhou para as janelas do prédio, mas havia luzes acesas em vários andares. Como adivinhar onde estaria acontecendo a tal festa? Havia a possibilidade de ela estar no lugar errado, mas achava muito pouco provável.

De dentro da bolsa, puxou o celular e discou o número de Pam, que chamou, chamou, chamou até cair na caixa postal. Repetiu o processo com o número de Mel, com o mesmo resultado. Para que serviam um milhão de redes sociais e um celular que custava uma fortuna se, quando alguém precisava entrar em contato com elas, elas não eram capazes de atender?

Discou o número de Maura. A madrasta, normalmente, atendia ao primeiro toque. Mas não nessa noite. Assim como o celular das irmãs, o celular de Maura tocou até cair no serviço de recados. Maldição!

Allegra conferiu a hora: dez e quarenta e oito. Se fada madrinha existisse, essa seria uma hora ideal para a sua aparecer. Seu celular vibrou: mensagem no whats, de Verônica:

– Gata, não encontrei uma vaga. Vou dar uma volta na quadra e passo aí daqui a pouco. 22:45

Isso: Whatsapp! Abriu a conversa de Pam e mandou um recado:

– A festa dos youtubers é mesmo no edifício Mirage? O porteiro disse que não sabe de nada. 22:46

Por via das dúvidas, repetiu a mesma mensagem no whats de Mel. Esperou um tempo, mas os segundos pareciam se estender como um rolo de tecido sem fim, em que você puxa, puxa, puxa e ele nunca termina. Decidiu mandar a mesma mensagem para o celular da madrasta.

Olhou para o homem na portaria. Ele mantinha a cabeça ereta, os olhos fixos em algum lugar indefinido ao longe. A dureza na sua expressão corporal demonstrava que ele provavelmente tinha sido militar. Uma rocha, incontornável. Olhou para a rua, com carros passando a cinco quilômetros por hora, com caras com os cotovelos para fora na janela de olho nas garotas nas calçadas. Deprimente.

Analisou as pessoas que vinham pela calçada: será que alguma delas era youtuber? Era bem possível que alguém, entediado com a festa de gente chata e vazia, tivesse saído dar um tempo daquele mundo de inscritos, views e analytics. Balançou a cabeça: claro que não. Se houvesse alguém lá naquela festa, a menos que fosse um intruso como ela, seria alguém tão fútil quanto as próprias irmãs.

A little less conversation voltou a tocar: era dona Maura, até que enfim:

"Allegra, a festa é no edifício Mirage, sim. Por quê? Algum problema?"

"Quando eu perguntei ao porteiro sobre a festa dos youtubers, ele disse que não sabia de nada. Achei que eu estivesse no lugar errado."

"Mas você passou a senha, filha?"

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