Capítulo Doze: Tempo de Agir

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"Uma vez perguntei a Luce se ela me amava. Soltou uma gargalhada tão estridente que julguei estar a gozar comigo. Não me respondeu. Não era suposto responder. Os guerreiros do deserto estavam habituados a que respondessem às perguntas com reações súbitas e movimentos pouco subtis, não com respostas categóricas. A reação de Lucilla, no entanto, surpreendeu-me. Alguns dias depois, sem que tal pudesse antevê-lo, confrontou-me. Estaria a maturar a questão durante todo aquele tempo. Perguntou-me se eu sabia que aquilo que nós tínhamos não era amor. Fiquei atrapalhado, sem saber o que dizer. Nada me havia preparado para aquilo. Uma resposta errada poderia ditar o fim do que nós tínhamos. Não falar era, por vezes, a forma mais adequada para manter o fascínio primitivo das relações humanas. Arrisquei e fui mais longe; puxei-a para mim, disse-lhe que não me interessavam os nomes que as pessoas davam às coisas e aos sentimentos, mas se amor era querer estar permanentemente com alguém, então ela estava enganada e que a amava, sim, como nunca amara mais ninguém. Nessa mesma noite, ela aceitou trair os Doze Vermelhos. Nessa mesma noite, montamos a armadilha."

Aquela noite prometia ser terrível. Na manhã seguinte, Brovios iria morrer.

― ... esta noite, podemos flexibilizar um pouco as regras ― disse Lucilla, sorrindo para Língua de Ferro.

Língua de Ferro fitou-a. Era um palmo mais alto que ela, mas as sombras do luar realçavam-lhe os contornos e faziam-na parecer mais sobranceira.

― Marovarola descobrirá em dois tempos onde estás escondida. Ele virá em meu auxílio.

Luce riu. Como o seu sorriso continua mágico, tanto tempo depois, pensou ele.

― Ele virá, disso não tenho dúvidas. Mas duvido que seja em teu auxílio, Val. Ele quer a coroa de acanto, tanto quanto Bortoli ou Agravelli.

― Como sabes isso? ― perguntou Língua de Ferro, com o seu sotaque arrastado. Ouviu então o pigarrear atrás de si. Quase tinha esquecido que Brovios estava ali. Deixou pender a adaga cruenta ao lado do corpo, mas o homem não mostrou vontade de o apanhar desprevenido ou imobilizar. ― Brovios...

O homem fitou-o com serenidade e alguma censura, mas a sua expressão tinha mais de professoral que de ameaçador. De uma assentada, recordou-se que Brovios fora um conselheiro de Lucilla, nos tempos em que os Doze eram uma irmandade. Ela via-o como um tutor ou um velho amigo, a quem frequentemente solicitava pareceres.

― O velhote tem sido um bom informador aqui na zona; mais fiável que os meus espiões mais sofisticados.

― Não mando nos homens de Agravelli ― disse Donatello Brovios ― , não sou mais poderoso e não se pode dizer propriamente que o tenha traído. Apenas não partilho da sua crença, embora me seja abonatório que o mundo olhe para o velho Brovios como um apêndice de Agravelli Domasi.

Língua de Ferro virou o olhar de Brovios para Lucilla. E dizes que não és um traidor...Velho, esguio e desagradável.

― Ele sempre me viu como uma filha, e quando soube que eu estava viva, arranjou forma de entrar em contacto comigo. Seji é um dos muitos espiões dele por estas bandas. Marovarola quer usar-te, Língua de Ferro. Usar-te para chegar a mim. Tudo o que sei sobre poder e estratégia aprendi-o contigo, lembras-te? Eu agora preciso de ti. Preciso de ti porque estou perdida. ― Os seus dedos frágeis deslocaram-se do queixo de Língua de Ferro para o peito, e a saliva ficou presa na garganta do salteador. ― Preciso de ti, não porque te ame ou porque signifiques algo de mais para mim, mas porque conheço-te melhor do que qualquer pessoa neste mundo, e sei que és a única pessoa capaz de salvar Landon X da fratura iminente.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!