Alice tem que voar

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                                 Por Oliver Fábio, Basilia Rodrigues e Nadja Moreno.

Parte 1

E se o amor estivesse em outro lugar? Já eram 29 anos vividos na mesma cidade, com praticamente as mesmas pessoas. Um tanto óbvio e inconsequente: o amor não estava ali. Ao ler aquele convite do amigo virtual para conhecê-lo pessoalmente no Rio de Janeiro, ela ficou paralisada. Olhava o computador e tinha certeza que o computador retribuía aquele olhar. Uma energia nova, mas muito esperada, fluía. Pareceu loucura, ela ficou pensando o que responderia, namorando seus pensamentos e o silêncio daquela máquina. Só que a dúvida se desfez quando ele, depois do convite e da demora em receber a resposta, escreveu: "Eu também estou sentindo o mesmo". Como ele, tão longe dali, sentiu aquele momento de êxtase? Ela sentiu que era hora de fazer as malas e viajar para descobrir o novo.

3 meses depois

O avião aterrissou na terra do samba, sol e carnaval. Estava radiante com o leque de possibilidade que surgiam em sua mente. Nada como uma nova cidade para gerar pensamentos positivos e motivação para elaboração de novos planos. Sua ansiedade era tão grande que era capaz de ficar falida por excesso de bagagem. O que logo iria se dissipar, bastava ver uma plaquinha: "Bem-vinda, Alice". Pegou a bagagem na esteira e encaminhou-se para o portão de desembarque. Assim que a porta se abriu, uma infinidade de pessoas surgiu à sua frente, várias placas para todos os lados, seus olhos vorazmente tentando achar a 'sua', após alguns minutos não a encontrou. Um atraso, pensou. Deveria procurar uma cafeteria e aguardar algum sinal de Pedro.

O telefone chamava sem parar e ninguém do lado de lá ousava atender, - onde foi parar Pedro? - Estava um pouco cansada da viagem. Tinha tomado um café e experimentado um pastel de Belém e nenhum bip no celular. Encontrava-se ali há cerca de duas horas. Suspirou insatisfeita e incomodada. Não conhecia o Rio de Janeiro e se via obrigada a se aventurar na grande metrópole. Agora Alice teria que realmente se reinventar e abandonar sua insegurança. Uma coisa era certa, não voltaria mais para sua cidade.

Foi para um hotel, jogou as malas sobre a cama e percebeu que ainda estava brava com o fato de não ter ninguém a esperando no aeroporto. Observou o telefone, esperando por uma mensagem com uma explicação qualquer. Nada. Sentou-se frustrada olhando para o nada. Talvez aquela fosse a oportunidade que sempre desejou de ir para o mundo. Havia se acomodado na cidade pacata de onde viera. Decidiu tomar banho e resolveu expandir os horizontes. Pedro deveria ser passado. Era hora de seguir adiante com sua vida. Lógico que ainda doeria um pouco o modo como ela parou no Rio. Depois do banho, desceu para o saguão do hotel e foi para a rua. Sentiu a maresia e procurou um quiosque à beira-mar. Era hora de definir o resto de sua vida.

Pegou uma água de coco e ocupou uma mesa. Conferiu a hora no relógio que sinalizava 16h35. Colocou a bolsa na cadeira ao lado. Amarrou o cabelo, fazendo um coque frouxo. Ficou olhando o mar, logo o sol se afundaria nele e ela tentando afogar sua tristeza em um coco verde. Não bebia, pois sabia que o primeiro gole sempre levaria ao próximo. Tinha outros planos para o seu dinheiro e álcool não fazia parte da lista.

Ali sentada e a brisa tropical não conseguia levar sua frustração.

Desde que leu o livro "O segredo", carregava com si uma lista de desejos. Porém, com a mudança inesperada de planos, era preciso mudar a ordem de algumas coisas. No topo estaria: procurar um trabalho novo. Ok. Até aquele momento a mentalização positiva não estava dando certo. A tal Lei da Atração estava indo contra a maré das suas preferências. Alcançou a bolsa e sacou uma caneta de dentro. Pegou um guardanapo que estava na mesa e começou a refazer sua lista de desejos. Baixou o olhar para o celular que parecia vibrar em seu colo. Pousou a caneta na mesa. O guardanapo voou. Um senhor, que caminhava bem perto, percebeu o papel na areia da praia e pegou-o para jogar na lixeira. Ele tinha toc e explicava: era consciência ambiental. Alice levantou a cabeça e percebeu que sua lista flutuou para longe e justamente aquele homem estava com seu escrito.

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