05.2

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De porte do objeto me coloquei de pé e disparei para fora daquele descampado, transpassando uma coluna de galhos retorcidos no meio do caminho.

Meu corpo respondia com mais prontidão, pulando e esquivando de obstáculos assim que minha mente vislumbrava a ação.

Nem mesmo a temperatura – expressivamente baixa para aquela época do ano e para um estado como Nevada – era um grande desafio diante da vontade esmagadora que possuía em seguir em frente, ainda que manchas vermelhas de queimaduras começassem a despontar do meu rosto e dos braços nus à medida que o vento cortante me atingia.

Era aquele calor interior, como uma pequena lareira particular que me mantinha aquecida. O calor, cuja a origem da primeira faísca era desconhecida, mas que me concedia a oportunidade de continuar minha jornada de forma rápida e constante ao seguir uma pista invisível.

Essa pista indicava o oeste. Depois de vinte e cinco metros de lema, cascas podres de árvores e de um breu quase ininterrupto nessa direção, os quais percorri escondendo minha nictofobia* em algum canto do meu subconsciente, o ganido agudo de um cão feroz e gritos humanos feriram meus ouvidos.

O sentimento de urgência se expandiu e imediatamente forcei-me a correr mais rápido sobre um chão que a superfície deixava de ser aplainada. Em segundos, descia a passos escorregadios as costas de uma pequena e íngreme colina. Em uma velocidade tão vertiginosa que o mínimo tropeço ou deslize me faria rolar pelo declive até parar chocando-me em uma explosão de dor com algum tronco ou pedregulho saliente.

Na base da colina à distância eu via a silhueta homogênea de um agrupamento de arbustos selvagens. Eles tomavam cor e ganhavam proporções maiores a cada novo troca de pés, formando uma barreira natural e espinhosa de mais de noventa centímetros de espessura e que, pela escassez de tempo, descartava qualquer possibilidade de salto ou contorno.

Quando finalmente cheguei ao fim daquela ladeira, cruzei meus braços em frente ao rosto e segurando firmemente aquele pedaço de rocha, sem hesitar ou diminuir o ritmo, fui ao seu encontro. Recebi como reação a minha investida o chicotear de milhares de hastes verdes com suas longas agulhas de costura vegetal cortando minha pele.

Tal como as malditas raízes, aquele grupo espesso de arbustos pareciam tentar se contrapor, impedindo minha passagem. Outra pessoa teria recuado ao sentir a dor das picadas. Recuado e tentado encontrar uma solução viável e menos auto-destrutiva, mas a todo piscar de olhos e a cada novo grito de lamento, flashes da face de Clementine vinham a mim, reafirmando minha determinação.

Depois do que pareceu ser um período incalculável, consegui fissurar aquele emaranhado de folhas e quebrando um último galho insistente com um safanão da mão direita, lancei-me para o outro lado.

Em uma comparação de extremos, ao seguir um coelho branco até sua toca em um dia quente e tedioso, Alice Liddell chegou ao País das Maravilhas. Eu, indo ao encalço de um demônio canino negro em uma noite gélida e caótica me deparei com uma parcela do inferno e era exatamente ali onde deveria estar.

Diante de mim surgiu um campo desnudado com duas vezes o tamanho da minha solitária clareira, mas sua quietude não era perturbada somente pelo excesso de ruídos.

No chão, a nove passos de distância, sobre o capim empoçado descobri uma figura feminina magra e naquelas circunstancias extraordinariamente pequena com traços drasticamente adulterados pelo terror e a agonia. A parte inferior de seu corpo era encoberta por cinquenta e dois quilos de carne, pelagem preta e um ódio animal devastador. Na mandíbula travada daquele cão mestiço – uma mistura de Pitbull com Mastiff –, se encontrava a já ensanguentada perna esquerda de Clementine.

A Garota Afogada do Lago GreeneLeia esta história GRATUITAMENTE!