A Bela Empoeirada

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Em tudo,
todas as coisas,
há algumas moscas.

Luiz Antonio Ribeiro

O primeiro barulho que aquele quarto recebeu em cem anos chegou sem avisar e irrompeu como uma avalanche. Já no primeiro instante, o jovem rapaz, de porte altivo e olhar curioso, não conseguiu deixar de demonstrar uma mistura de medo e surpresa além de, evidentemente, um peito arfando ofegante, resultado da hercúlea tarefa de escalar a torre mais alta do castelo daquele reino.

No entanto, logo ao se levantar, notou que seu corpo não reagia como havia imaginado, mas pelo contrário, estava tenso, dolorido e sujo: estava, enfim, completamente empoeirado. O lado direito da roupa, principalmente na ombreira que amparava uma capa de veludo vermelho repleta de insígnias de bravura, parte em que apoiara o corpo para amaciar a queda, continha uma espécie de lodo antigo que, em segundos, se grudou de forma aparentemente irreversível na roupa que ele selecionara e preparara durante semanas para aquela ocasião.

- Sinto que esta missão parece não ser aquela ao qual fui designado. – disse com uma voz imponente de príncipe. No entanto, percebeu estar sozinho e resolveu ser o mais informal que conhecia, se desarmando da pose triunfante que entrara no recinto – Nossa, o negócio aqui está complicado, não é? Parece que não vê uma faxina ou uma vassoura há uns cem anos pelo menos. – falou alto, com bom humor.

Ao escutar o próprio som que ecoava no vazio preenchendo os espaços, resolveu olhar: e o que viu não o agradou nem um pouco. O quarto estava completamente imundo e repleto de teias de aranha por todos os lados. Do chão, camadas e mais camadas de poeira juntavam-se aos sapatos úmidos, virando uma pasta estranha e amorfa que deixava rastros enquanto ele avançava. No teto, havia morcegos adormecidos pendurados, enquanto que pelos cantos, ratos dançavam a procura de pequenos insetos como baratas, moscas e aranhas. A poeira, misturada às teias, criavam uma impressão forte, uma espécie de amálgama pegajoso que cumpria, no fim das contas, a função de se tornar obstáculo mortal não só para pequenos animais, como também para os humanos, afinal de contas, entre o ácaro e a aracnofobia existem muitas patologias que podem se desenvolver tanto na mente de um sujeito quanto no corpo de uma figura, mesmo as menos frágeis deste mundo.

- E ainda fazem isso com um príncipe! Isso não será perdoado! – decretou, meio falado, meio em pensamentos, enquanto procurava um espaço por entre os labirintos empoeirados.

Resolveu, por fim, rumar para a missão a que lhe fora atribuída: beijar a moça adormecida há cem anos. Viu, logo no canto do quarto, a cama da donzela com parte de um lindíssimo dossel rasgado, com os lençóis amarelados de urina e em todo canto, muitos restos de fezes de insetos. No meio da cama, por fim, uma moça linda, formosa, como descrita nos cantos e nas histórias, como prometida nas vidas dos heróis mais puros que habitam essas e outras terras. Porém, por fora do que era belo e do que era perfeito, a moça de nome Bela não era, e não podia ser, aquilo que dela era esperado: após cem anos, a mulher hospedava em seu corpo, além de si, um amontoado de poeira, sujeira, rejeitos e excrementos que provavelmente quase ninguém poderia imaginar ser possível. A Bela Adormecida real estava fatalmente suja.

De perto, o príncipe chegou a notar que a moça tinha entre os lábios e os cílios, uma espécie de camada esponjosa de baba seca misturada com teias de aranha abandonadas pelas suas donas. Enfim, como numa morfologia de aproximação, uma osmose de lugar/corpo, o estado da moça era tal qual o da torre. E, ainda assim, era bela e emanava de si uma espécie de magnetismo antigo e mítico.

- Bom, mas missão é missão! – brandiu erguendo o peito e mostrando a força que tinha adquirido nos braços, como se a se convencer de que não havia outra forma de agir a não ser aquela a qual era esperada dele: uma história precisa ser contada e sua missão é apenas uma. E simples.

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