Capítulo 1

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JÚLIO

Foi difícil a decisão entre cumprir as ordens ou não, a escolha me gerou várias consequências, mesmo depois de tanto tempo... Foi a partir dela que surgiram muitas mudanças em minha vida...Nada mais foi como antes. Conquistei meu cargo. Mas a que preço? Era imaturo, apesar de já ser um soldado, não conhecia nada sobre a vida e sobre o que era ser militar de verdade.

Muitos consideram sorte estar agora onde estou. Quando decidi participar da competição, sonhava com o crescimento rápido, a oportunidade única de ter um dos cargos de confiança dos governantes, trabalhar no Palácio do Governo. Consegui, mas não foi tão fácil como parece.

Mesmo agora, nada é fácil. Na competição pude escolher. Aceitar as ordens era estar um passo à frente em busca do meu objetivo, rejeitar significava voltar para casa e me contentar em ser um simples soldado pelo resto da vida. Optei por seguir na competição e cumpri-las. Agora há possibilidade de ter que cumprir de novo, em uma situação diferente, mas em um mesmo contexto: uma morte a sangue frio a pedido da governante.

Margareth ainda não ordenou, somente pediu que leve uma criança. Porém, conheço o que ela e os outros dois fazem quando se cansam de alguém e essa pessoa sabe demais. Foi o que ocorreu à guarda pessoal dela, há alguns dias. A soldada que trabalhava comigo na proteção da governante foi morta porque torceu o pé em um treino e precisaria ficar alguns dias afastada. Como necessitariam arranjar alguém para ficar em seu lugar por algum tempo, e Tamara já tinha uma certa idade, preferiram matá-la e convocar outra para ser permanente na função.

Apesar da angústia e das lembranças que as ordens de Margareth me causavam, aprendi a esconder minhas emoções e controlar-me todos os dias. Não demonstrei nada a ninguém. Reação alguma. Agir contra meus princípios fazia meu coração acelerar e a boca secar, mesmo assim segui em frente.

Fomos até um bairro afastado do centro. Era mais um dos inúmeros locais pobres que cercavam a Capital, cheio de casebres de madeira e papelão, rodeados por lixo, pobreza e desgraça. O esgoto corria em valetas na beirada da rua e o calor da manhã só ajudava a aumentar o odor, que podia ser sentido mesmo de dentro dos carros. Havia também lixo misturado ao esgoto, apodrecendo e exalando o fedor da putrefação. Alguns cachorros reviravam os dejetos à procura de alimentos. Pela magreza dos animais, exibindo a pele repuxada pelas costelas, era de se imaginar que não arranjavam muita coisa.

Vários moradores observaram desconfiados quando nos aproximamos, por ser distante e por ter uma população carente, ninguém ia até o local, muito menos militares.

Desci do carro, liderando os outros soldados. Nem havíamos entrado em formação quando fomos cercados por várias crianças. Todas pareciam ter menos de 10 anos e estavam seminuas, com calções rasgados e pés descalços. Suor e urina exalavam das criaturas em nossa frente.

— Que fedor dos infernos! — disse o outro sargento, olhando com desprezo os seres em nossa frente — Vamos fazer isso duma vez e dar o fora daqui!

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, um garotinho me chamou a atenção em meio à multidão, não parecia ter mais de cinco anos de idade e vestia uma bermuda rasgada que fazia sua proeminente barriga se destacar do restante do corpo. Apesar de à primeira vista aparentar ser gordo, o rosto, os braços e as pernas eram bem magros e ao contrário dos outros, ele me encarava sério, admirado. Um grande grupo já se formava em nossa frente, as crianças mais próximas de nós e suas mães logo atrás. Não haviam homens, apenas mulheres que observavam os soldados fardados e armados em frente aos seus filhos.

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