9a. A nova escola (parte 1)

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Finalmente estavam em frente à nova escola. Porasy só notou que haviam chegado quando o ônibus parou e os alunos começaram a descer. A escola ficava do outro lado da rua ao que ela se encontrava no ônibus, então não a tinha notado. Também estava distraída, talvez pensando no que Guarasyáva tinha falado.

— Vamos? – a irmã estava ao seu lado e a aguardava. Os outros que vieram com as irmãs desde a Aldeia também se dispuseram a acompanhá-las.

— Vamos mostrar a vocês onde fica a secretaria e depois nós vamos para sala – disse Cobi, irmão de Guarasyáva.

— Tá bom, obrigada – respondeu Yvy.

Era uma escola pequena. E as meninas não esperavam que fosse diferente, é claro, pois era uma cidade pequena, no interior do estado. Entraram pelo portão e se depararam com o pátio e as salas em duas fileiras, uma defronte a outra. Porasy contou de forma rápida e viu que seria umas dez a doze salas de aula. Imaginou que uma delas deveria ser a sala de tecnologia e uma outra a biblioteca, talvez.

No centro do pátio, a adolescente identificou o refeitório, tendo ao fundo a cozinha, e uma pequena lanchonete. Mas ela sabia que comeriam a merenda da própria escola. Não tinham condições financeiras para comprar lanche todos os dias, para as duas irmãs. Talvez, uma ou duas vezes por mês, quando os pais recebessem.

— Aqui fica a secretaria – disse Cobi. E se dirigindo a uma moça, que as irmãs deduziram logo ser a secretária continuou – Essas aqui são novas na escola, Ellen. Se mudaram ontem para nossa Aldeia. Essa é a ... como é mesmo o seu nome? – Se voltou para a irmã de Porasy.

— Meu nome é Yvy Rajy e o da minha irmã, Porasy. Obrigada, Cobi.

O som forte de campainha, que fez doer os tímpanos, avisou o início das aulas. Os alunos se movimentaram em direção às suas respectivas salas.

— Eu vou indo, meninas – disse Guarasyáva. Minha sala é aquela – apontou uma das salas.

— E aquela é a minha sala e de Mayra – disse Cobi. – Como aqui só tem um nono ano, a Yvy Rajy vai estudar com a gente.

— Tá bom, gente. Obrigada. Vou fazer as nossas matrículas aqui e depois vou pra sala. A gente se vê – disse Yvy.

Eles saíram seguindo o fluxo dos alunos. Porasy os observou por instantes e depois se voltou para Ellen, a secretária. Um suporte, mais ou menos da altura de sua cintura, no lugar da porta que estava aberta e recostada, separava a interior da secretaria da parte externa, que dava para o corredor.

— Então vocês são novas aqui? – Disse Ellen. – De onde mesmo vocês são?

— De Dourados – responderam juntas, as irmãs.

— Vocês vão ficar até o final do ano?

— Vamos sim – responderam juntas de novo. – Porasy já achou aquilo chato e decidiu não falar mais.

— Tudo bem – disse Ellen. – Vocês trouxeram as transferências? Estão com seus documentos?

— Sim – desta vez só a irmã respondeu. Mas as duas foram retirando, ao mesmo tempo, de suas mochilas, os documentos, junto com as transferências.

A moça apanhou os documentos, as transferências e deu uma olhada. Conferiu os nomes e séries.

— Nomes diferentes, os de vocês – disse. – Como que fala? É em língua indígena? Vocês são indígenas, né? Os nomes de vocês têm algum significado?

Porasy se cansou só com o tanto de perguntas. Se recostou na parede, olhando para o pátio e deixou que irmã respondesse.

— Sim, somos indígenas – A irmã mostrou na identidade: – Etnia Kaiowa. Eu sou a Yvy Rajy e meu nome significa Filha da Terra, nativa do lugar, entende? Mas pode me chamar só de Yvy, se você achar complicado o meu nome. Quase todos me chamam assim. O nome de minha irmã é Porasy. Porasy significa Mãe das Almas, e pode ser também Mãe da Beleza. O nome dela é de uma heroína da nossa mitologia. A Porasy da nossa mitologia salvou nossos antepassados de uma série de monstros que estava destruindo o povo.

Aff! Pensou Porasy. Para que a irmã tinha que entrar nesses detalhes? A menina ficou ainda mais enjoada. Se não tivesse que fazer a matrícula sairia dali, com certeza.

— Uau! Que interessante! Aposto como a professora de história vai gostar muito de conhecer vocês e as histórias da sua mitologia. Ela tem um projeto sobre os povos indígenas do Estado. E ela é muito querida dos alunos indígenas.

— Que bom – Yvy disse.

A moça pegou os documentos e se voltou para a impressora para tirar cópias dos papéis. Porasy aproveitou para olhar melhor a parte interna da secretaria. Era bem pequena, com três escrivaninhas e um computador em cada uma delas. Uma outra moça e um rapaz ocupavam as cadeiras e pareciam trabalhar em algo muito urgente, porque não pareceram curiosos com as adolescentes. O que não era muito normal. No fundo uma porta aberta dava para mais um cômodo e Porasy pode visualizar uma série de armários. Provavelmente arquivos com os documentos e matrículas de cada aluno

— Pronto. Já tirei as cópias e agora vou preencher tudo. Mas a matrícula ainda vai ficar em aberto. Vocês duas são de menor e é preciso que um de seus pais, ou responsáveis venha assinar. Tá bom?

— Ah sim! Com certeza – disse a irmã mais velha. – Esqueci de dizer que meus pais virão aqui à tarde. É que eles não queriam que a gente perdesse aula.

— Muito bom. Então está certo aqui. Assim que eles vierem vocês receberão também a carteirinha do ônibus e o uniforme. Vocês têm material escolar?

— Temos sim, obrigada – ainda foi Yvy quem respondeu.

— Eu vou levar vocês nas suas salas.

Dizendo isso ela saiu e foi conduzindo as irmãs pela escola. Primeiro deixou Yvy em sua sala, apresentando-a ao professor que estava ali, naquele horário. Era a mesma sala de Mayra e Cobi, como elas já haviam sido prevenidas. Depois a secretária conduziu Porasy à sua sala, repetindo a mesma ação de apresentá-la. A Guarasyáva, que estava naquela sala, fez sinal para ela indicando uma carteira vazia ao lado da sua. Ela mesmo a separara para a garota. Porasy ficou feliz com o gesto dela, afinal, não conhecia mais ninguém ali.

— E aí, deu certo? – Ela sussurrou assim que Porasy se sentou.

— Deu sim. Mas a matrícula só será validada quando meus pais vierem para assinar. Mas eles vão vir de tarde.

— Ah, tá!

— Que aula é agora? – Perguntou com a intenção de tirar seu caderno.

— Língua Portuguesa. O nome da professora é Silvana. Ela é bem legal.

Porasy retirou seu caderno, seu estojo, pegou uma caneta e marcou a primeira matéria do caderno: "Língua Portuguesa – professora Silvana".

(1.163 palavras)

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora