9b. A nova escola (parte 2)

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A aula era sobre um poema de Emannuel Marinho, um poeta de Mato Grosso do Sul. O poema, tinha o título "Genocídio" mas era mais conhecido como "Tem pão velho?", tratava da questão indígena e era um poema que Porasy gostava muito. Ela o sabia de cor e o tinha recitado no quinto ano, em uma apresentação da semana do índio, com a tão querida professora do quinto ano, que amava os índios, suas histórias e mitologia. O poema falava de crianças indígenas na cidade, pedindo pão velho, mas que recebia só negativas. Não, ninguém tinha pão velho para elas, pois todos só tinham dinheiro para os carrões, mansões, viagens. Ninguém tinha dinheiro para uma investir em uma criança indígena.

A aula seria maravilhosa, não fosse um problema: o preconceito e discriminação para com os povos indígenas por parte de alguns dos alunos, agora colegas de Porasy. O ódio incrustrado nos corações e mentes dos adolescentes, em especial de uns, filhos dos grandes fazendeiros da região. Em pouco tempo, a professora lutava para ter controle da sala e para calar aqueles que chamavam os índios de selvagens, preguiçosos, justificando a falta de pão para as crianças, como sendo culpa dos indígenas que, segundo eles, não trabalhavam.

— Não tem pão para esse bando de vagabundos, mesmo não. Nem pão velho! – Disse um dos meninos que Porasy identificou como sendo um dos mais velhos da turma. A sua calça jeans, seu tênis e casaco denunciavam que era rico. Deve ser filho de um poderoso fazendeiro, que têm suas terras sobre território indígena, pensou Porasy. – Trabalhar esse bando de preguiçosos não quer! Cadê que tá pedindo um trabalho? Ficam esse bando de gente imprestável nas ruas pedindo. Não querem trabalhar, mas querem ter terras. Ficam aí, brigando pelas NOSSAS terras! Bando de gente à toa. Tinha é que matar!

Quando o guri falou isso, o ódio invadiu Porasy e tomou conta dela. Em fração de segundos, antes que alguém entendesse o que estava acontecendo e pudesse, de alguma forma, interferir, ela estava em cima do garoto! Quase tão rápido como um raio, o rapaz caia para trás, sobre mesas e cadeias. Ela o havia soqueado. E a força usada tinha sido tal que o rapaz não teve como se defender. Na verdade, nem Porasy entendeu como fizera aquilo. Ela podia jurar que não tinha aquela força, e não imaginava onde a arranjara. Mas ali estava ele, caído sobre uma cadeira e quando, por fim se levantou – Porasy chegou a ficar com medo que ele tivesse batido a cabeça muito forte e tivesse morrido – seu nariz sangrava.

O jovem encarou a menina por um instante, sem ação. Então passou a mão no sangue que escorria e olhou, primeiro para o sangue na mão, e depois para ela.

— Isso não vai ficar assim! Sua bugra! – Enfim explodiu! – Tinha que ser uma bugra! Não sei até quando essa escola vai ficar aceitando esses bugres idiotas! Lugar de índio é na selva. Mata é que é lugar de bicho!

Ela já ia para cima dele de novo, quando a professora, agora já no controle da situação, a segurou. Ele ajuntou as suas coisas e saiu xingando a menina. Depois de alguns instantes em que todos permaneceram sem ação, um dos colegas ergueu a mesa do rapaz que saíra. E de repente Porasy percebeu que a sala estava no mais completo silêncio e todos a encaravam. A menina da aldeia, sua colega e agora sua amiga, se aproximou, pegou sua mão e apertou.

Em um sussurro ela falou:

— Valeu! Você foi demais! Lavou nossa honra!

Quando a professora, afinal, se recuperou do seu transe percebeu que ainda segurava Porasy e a soltou:

— Menina, o que foi isso? Você está bem?

— Estou bem sim, professora.

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora