II

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Mesmo sem nunca ter visto um barco, eu fui ensinada a perceber quando um se aproxima. Nossos sentidos se estendem por uma grande área, nossa percepção vai além do comum e mais do que ver ou ouvir, nós podemos sentir a aproximação - por distâncias que dependem apenas do poder de cada uma. Nossa educação foi repleta de lacunas que talvez só eu tenha percebido. Qual animal poderia mover o referido barco? O que realmente é um barco? A Casta 2 protege o Reino de quais perigos exatamente? Por que uma 1 tem que dar aulas sobre coisas que apenas uma 2 já fez? E porquê raios uma 1 ganha uma coroa ao nascer? Mais que isso, porquê há cada vez mais avisos, por todo canto do Reino, descrevendo aproximações que não podemos ter de outras sereias, há cada vez mais a menção a palavra "sentimento" e "amor", algo tão confuso e nebuloso que é explicado com ilustrações - feitas pela Casta 1 - do que seriam tais palavras. Foi apenas recentemente que as aulas passaram a ser interferidas por sereias da Casta 1, que adentravam a sala de aula sem a mínima cerimônia e se punham a discorrer longamente sobre essas duas palavras, aparentemente, tão importantes. Quando me aproximei de Nik a pouco, copiei sem nem perceber, uma das ilustrações mais proibidas pelas sereias da 1 - e por todas com que conversássemos. Eu e minhas irmãs chamávamos essa invasão da aula de "Patrulha 1" em que a sereias adentravam com seus cabelos de várias cores e coroas brilhantes acompanhadas de uma lanterna, a qual apontavam para uma parede qualquer e projetavam os tais movimentos proibidos. A repreenda nunca suscitou  medo em nenhuma de nós, até o dia em que Nirvana, uma irmã de um dormitório próximo ao meu, deixou de aparecer nas aulas e de frequentar o Casarão. A partir deste dia, as visitas da Patrulha 1 só aumentaram, e ficaram cada vez mais obtusas, e rumores de que Nirvana estaria agora vivendo junto da Casta 3, se espalharam como mexilhões novos. Dia após dia a relação entre as sereias ficaram estranhas, havia cada vez menos conversa entre nós; nas arenas eu podia sentir uma tensão que dominava cada olhar e cada golpe. Sempre apenas uma angustiante vontade em provar o máximo de indiferença e violência uma para com a outra. Nesse ínterim, apenas Petrus se mantinha impassível e - como se fosse possível - mais simpático conosco. 

O barco estava tão perto que eu já podia ouvir os sons do motor, esperava que ele seguisse adiante. Eu me lembrava que deveria me transformar e patrulhar o perímetro. Com as mãos tremendo levemente, tirei de dentro da bolsa o meu espelho mágico e me concentrei - precisava que ele me mostrasse o animal ideal para aquela localização e habitat. Pedi com toda a minha magia para que ele me respondesse rápido qual seria o grande escolhido - algumas sereias voltavam todo ano  de sua primeira expedição contando sobre a maravilha de ter sido um peixe palhaço  por algum tempo ou como ficaram surpresas em estar na pele de um tubarão. Quando finalmente o espelho me mostrou a resposta, o barco parou - bem acima de onde eu estava - lá na superfície, lá naquele mundo que eu desconhecia. Fiquei apavorada e mal olhei para o animal que aparecia no objeto mágico - eu já me concentrava evocando toda a minha magia, todo o meu conhecimento sobre o que eu me tornaria, tentando me conectar ao máximo com todos de sua espécie que eu já tive amizade. Quando abri os olhos eu era um golfinho - pelo menos era o animal que eu me lembrava de ter visto no espelho antes dele desaparecer magicamente junto de meu corpo de sereia. 

Mas alguma coisa estava errada, meu corpo que era para ser azul adquirira um estranho tom de - cor de rosa? Em qual bicho eu havia me transformado? 

Mal tinha me dado conta do meu enorme erro, algo enorme caiu na água e o impulso da queda fez várias bolhas me arrastarem para longe de onde eu estava. Ao mesmo tempo, com um sentimento horrível de confusão e medo comecei a sentir muita sede, quando mais água eu bebia, mais água eu precisava. Sentia meu corpo de animal desidratar em meio à tanta água! E por mais que eu lutasse eu só conseguia perceber o quanto eu estava sedenta, zonza e confusa. Ao fundo eu ouvia uma voz que parecia dizer algo como "Um boto cor de rosa em alto mar? Quem faria um maldade dessas?" E foi então que uma parte de mim - a que não estava se preparando para morrer - entendeu: esse animal deveria ser de água doce. Eu tinha ouvido falar muito das distinções entre as águas - mesmo sem saber muito a respeito de onde encontrar essa tal água doce. Assim, com o que ainda me restava de consciência consegui voltar à minha forma de sereia. Mas o que vi me assustou mais do que minha quase morte: Um animal do meu tamanho, com uma com uma espécie de cauda preta colada ao corpo, e formas estranhas em sua boca; olhos e costas - seria algum tipo diferente de peixe boi? Mal pude reparar muito nessa estranha criatura - a não ser talvez, em seus olhos pequenos e azuis. E então apaguei.

Sociedade das Sereias - Reino de AletheiaLeia esta história GRATUITAMENTE!