Parte Três - Lola

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Em um piscar de olhos me materializo em meu destino, a raiva transbordando enquanto meu rosto queima pela vergonha de ter minhas palavras escutadas por Lavínia.

O escritório de Isaac está exatamente como da última vez em que estive aqui e, quando ele me nota, ergue seus olhos em um misto de surpresa e mau humor. Acho que ele não previu que eu usaria meu recém-adquirido poder de teletransporte para me colocar dentro de seu escritório sem ser anunciada.

Ele abre a boca para falar, mas eu sou mais rápida. Ninguém poderia me jogar nos confins do inferno por matar Isaac pelo que ele aprontou.

— Ela pode me ver! – esbravejo assim que tomo minha forma completa novamente.

Ele respira fundo e entrelaça os dedos sobre o colo, inclinando-se para trás em sua cadeira. Me olha sério, como se pudesse me fazer recuar, mas não pode.

— Sim, eu sei. – sua voz sai calma, como se ele estivesse cansado daquele mesmo assunto.

— Você sabe? – não consigo esconder a reação estupefata. – Como ela pode me ver?

— Ela morreu. – ele fala como se fosse óbvio e eu idiota por não perceber. -- Na mesa de cirurgia, após o acidente. Foi por alguns minutos e aí voltou.

— Ela morreu e voltou?

Isaac dá de ombros. – Alguns humanos têm defeitos de fabricação. É por isso que ela pode te ver. Tocar. Ouvir...

Sinto que minha cabeça vai explodir. Defeitos de fabricação. Humanos têm defeitos de fabricação. E como eu não tenho?

— Isso... – eu não consigo formular uma resposta coerente e volto a indignação. – Ela pode me ver e ouvir e tocar e você me mandou do mesmo jeito? Não posso ficar lá! Me dá outra missão. – exijo, apoiando minhas mãos sobre a mesa e encarando-o tão duramente quanto ele fez comigo antes.

— Você saberia se tivesse lido o arquivo que recebeu. E não posso te dar outra missão.

— Claro que pode! Você é o todo poderoso daqui. Me dá outra humana. Agora.

— Não posso. – ele repete, levantando-se para me encarar de cima. Acho que ele usa sua altura para tentar me intimidar, mas ele deveria saber que meus 1,60 nunca foram intimidados por ninguém. – Desde o acidente, Lavínia já teve três anjos da guarda. Um deles caiu por um pecado mortal e dois outros estavam no caminho quando interferimos...

— E se eu cair? – o interrompo sem nem saber exatamente o que aquilo significa. Desejo desesperadamente que haja um motivo, qualquer um, que o faça me encaminhar para outro humano.

Isaac me olha irritado por tê-lo interrompido, mas não me desculpo. Ele suspira longamente antes de me responder, a contragosto.

— Você não vai. – novamente é como se ele estivesse me falando algo tão obvio que por uma fração se segundos me sinto burra.

— Como você pode ter certeza disso? Um anjo dela caiu e outros dois quase! – exclamo, me recompondo rapidamente.

— Você não pode.

As respostas curtas que ele me dá e a maneira que fala, como se eu fosse uma criança pequena que precisa de diversas explicações – e repetidas vezes – estão me deixando mais irritada ainda.

— Por que não? – grito exasperada, jogando as mãos para cima.

Com mais um suspiro e rolando os olhos, deixando um barulho incomodado sair de sua garganta, Isaac me olha de cima a baixo e então responde:

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