Cor de Rosa

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Não consigo lembrar da primeira vez que vi Rosa. Em todos esses anos de uma vida acabrunhada por demais, mil vezes persegui o rastilho de seu perfume pelas macegas da memória, e em mil e uma a recordação me escapou. Talvez seja bom assim. Melhor que qualquer lembrança é a impressão que fica, marcada naquele fiapo de quentura a incendiar o peito e retorcer o estômago mesmo quando a cabeça da gente nem sabe mais o que aconteceu direito. Mas o coração sabe, e esse aí nunca esquece.

Depois da primeira, houve outras. E dessas me recordo bem. Várias e várias outras, em que nos cruzamos noite adentro. Sempre naquele mesmo bar, naquele mesmo porto. Lembro das tantas vezes em que busquei o pretume dos olhos de Rosa, aqueles olhos que pareciam me arrastar com doçura e violência para suas profundezas.

Eu, no auge daquela meninice que acovarda os homens adultos, tentei resistir. Por fora vestia certezas: barba, escapulário no pescoço e ouro na mão direita. Por dentro ninguém sabia. O olhar de Rosa era uma âncora que me acorrentava à Baía do Guajará, mesmo que me sentisse tão à deriva.

A quem eu tentava enganar? Uma família que só se reunia no Círio, para fotos em mesa farta e sorrisos ensaiados? Amigos que enchiam a boca para repetir meu sobrenome, mais apegados a ele do que eu jamais havia sido? Não... Eu enganava a mim mesmo. E Rosa respeitava. Espreitava entre silêncios e sorrisos que dobravam as curvas sinuosas de sua boca, que parecia sempre prestes a me arrastar para longe das margens de mim.

E assim correram os anos. Vi Rosa quando a matinta cantou três vezes e meu velho pai se deixou encantar, sabendo o consolo que me era sua presença. Vi Rosa na véspera do meu casamento, mas seus olhos não me fitaram naquela noite. Inútil. Eu fechava os olhos e via os de Rosa; olhos que me encaravam de volta na escuridão que habitava o fundo das minhas pálpebras.

No dia seguinte, tremi ao dizer meu juramento perante o Senhor. Era normal ficar nervoso, disseram as mãos sobre meus ombros. Tudo ficaria bem. Tudo.

Vi Rosa na noite em que aceitei a bolsa de estudos na Europa. No espelho do banheiro do nosso bar, ensaiei despejar em seu colo tudo aquilo que sentia. Mas eu não estava pronto, e as palavras me rasgaram a garganta feito espinhela de peixe – e não havia farinha d'água suficiente para fazer engolir.

Achei que nunca mais veria Rosa, torcia para que a distância me afastasse daquilo tudo, mas assim como as águas que correm no rio cedo ou tarde voltam a ele, eu também voltei a Belém, e Rosa ainda estava lá. Nós nos encontramos numa noite sem estrelas, num canto escuro da baía. Eu havia passado horas esperando sozinho no bar, e a caminhada pela praia parecia uma opção menos deprimente do que pedir mais uma cerveja.

— Você está diferente.

Era a primeira vez que eu ouvia aquela voz, me toquei, mas o arrepio que veio à nuca, quase que uma mordiscada, me fez saber de imediato quem falava. Sorri. Eu havia engordado; passei a mão nos cabelos, sentindo as entradas de calvície se formando nos cantos da testa. Eu... Eu me sentia menor diante daquela beleza imutável que me encarava.

— E você não mudou nada... – respondi. E era verdade. Rosa não parecia ter envelhecido um único dia desde a primeira vez que lhe deitei os olhos.

— Não, não falo disso. Você mudou... Agora sabe quem é.

Tremi, e dessa vez não de vergonha. Passei a vida toda tendo esse sentimento por companhia, e reconheceria se fosse o caso. Era outra coisa. Encarei Rosa, o corpo uma mera silhueta sob a luz da lua.

— Sim... Acho que sei. — Agora era a certeza que me vestia. — E você? Quem é?

Andou em minha direção, mas a cada passo não era mais Rosa. Ao menos não Rosa que eu conhecia. Era uma cabocla faceira, com cabelo solto e cheirinho de mato; era um marinheiro de pés descalços e barba espetada feito arame num queixo duro; era menina moça ainda com farda da escola; era um velho de peito largo, sorriso fácil e sotaque estrangeiro. A única constância eram os olhos. Os mesmos olhos de fundo de rio. E eu prestes a me afogar.

— Sou quem eu quiser. Ou melhor, sou quem você quiser. Precisa de mais do que isso? – sorriu, voltando à forma que me era tão familiar. Seu nome nunca fizera tanto sentido.

Eu fiquei em silêncio. As palavras passavam como um turbilhão, rápidas demais para eu me agarrar a qualquer uma. Rosa continuou vindo, um carro se aproximando de um animal atônito. Deu a volta pelas minhas costas e assoprou em meu ouvido. Senti o sangue voltar a circular, o coração ritmado pelo som da sua fala.

— Você fez a pergunta errada, não acha?

Medo. Desejo. Vergonha. Paixão. Aqueles olhos. Água negra. Morte. Aqueles olhos...

— Você quis saber quem eu sou, não o que eu quero... – continuou.

O fundo do rio.

— O... O que você quer? – consegui perguntar.

Eu fui de Rosa aquela noite. De corpo e alma. Sua boca era apertosa feito jambu, seu gosto doce feito mel de jataí. Nos amamos desesperadamente, longe do olhar dos curiosos. Discrição, a bem da verdade, já não era mais importante. Se alguém comentasse alguma coisa, nesse diz-que-me-diz da classe média paraense, eu só precisava dizer a verdade.

— Foi Boto.

E tudo ficaria explicado.

Cor de RosaWhere stories live. Discover now