Parte Dois - Lola

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Entro na casa pisando na ponta dos pés. O chão é feito de madeira escura, como as paredes, e ela parece menor no interior, mais atulhada de móveis. A porta dos fundos dá para a cozinha, que é dividida da saleta por uma mureta. A cozinha é relativamente grande, com uma mesa para seis pessoas, móveis novos e eletrodomésticos brilhantes.

A sala é menor, com um largo sofá cor de vinho em frente à janela e uma televisão de tela plana em meio a uma estante abarrotada de livros — havia tantos espremidos ali que alguns precisaram ser colocados na horizontal, sobre as fileiras. Acumulavam títulos de poetas em sua maioria: Tennessee Williams, Pablo Neruda, Maya Angelou, Emily Dickinson, E. E. Cummings. Alguns clássicos como as irmãs Bronte, Poe e Mary Shelley pareciam empoeirados e gastos, como se há muito tempo tivessem sido folheados incessantemente.

Próxima à estante está uma escada em caracol, com o corrimão de ferro retorcido que me leva até o segundo andar. Meus pés estão descalços e quando coloco, relutante, o direito sobre o primeiro degrau, não posso ouvir qualquer barulho. Aparentemente, anjos não emitem sons. Começo a subir e o silêncio me acompanha de uma maneira perturbadora. Talvez, se eu tivesse prestado mais atenção aos vídeos estúpidos de Isaac, isso não seria uma surpresa. Droga.

No segundo andar da casa me deparo com o corredor curto, enfeitado com um tapete de estampas étnicas e gasto. O andar parece mais velho e usado que o primeiro. Há dois quadros nas paredes com as fotos de família e no final do corredor o aparador possui apenas dois objetos: um telefone e um porta-retratos com a foto de uma mulher. Pela vela acesa ao lado eu imagino que aquela seja a mãe de minha protegida. Ela é bonita, com cabelos escuros e olhos perdidos.

Parece um pouco mórbido demais para mim.

Há quatro portas no corredor e uma delas está entreaberta, deixando escapar You can't Always Get What You Want. Eu fico parada no corredor até que a música termine e alguma coisa do Audioslave começasse a tocar. Esse tempo aqui é bom, porque posso descobrir que o gosto musical da minha protegida é velho e isso não é lá a coisa mais empolgante. Se ela gostasse de algo como Kate Nash e Sarah Jaffe quem sabe poderíamos ser amigas.

Continuo parada no corredor e preciso admitir para mim mesma que faço isso porque não sei como reagir. Eu entro e o que? Eu devo fazer o que o dia inteiro? Segui-la para cima e para baixo como uma stalker? Isso é muito perturbador.

As músicas continuam seguindo uma sequência aleatória até chegar em algum heavy metal e eu ter certeza de que Isaac fez isso para me provocar. Tenho certeza de que ele procurou pela pior protegida do mundo e entregou a mim. Acho que ele está usando esse dia como algum tipo de vingança pessoal pelos meus comentários espertinhos. Ou ele está fazendo um jogo comigo.

Maldito! Tenho certeza que esse não é o comportamento esperando de um anjo!

Respiro fundo e decido que preciso fazer alguma coisa. Então entro no quarto e tropeço em algumas peças de roupa espalhadas pelo chão. Olho a minha volta e encontro um quarto bastante típico de adolescente: bagunçado. Os móveis têm um estilo colonial na cor branca e a cama é grande, de dossel. As cobertas estão emboladas sobre o colchão, o papel de parede azul claro está descascado em um canto próximo a janela – e tem algumas coisas rabiscadas na parede ali. As cortinas são claras e suaves, combinando com o estilo do quarto e destoando completamente da bagunça em que ele se encontra.

Minha protegida está sentada no banco da janela, terminando de amarrar um tênis converse rosa. Quando ela fica de pé e ergue a cabeça rapidamente, fecha os olhos e solta um longo suspiro antes de caminhar até a cômoda na parede oposta e começar a colocar uma câmera e alguns apetrechos dentro de uma bolsa preta pequena.

Estrelas Perdidas (disponível até 10/05)Leia esta história GRATUITAMENTE!