Desejo de Sombras

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Em uma pacata cidade do interior da França os cidadãos viviam suas vidas normais, suas miseráveis vidas normais. Não tinham rotina, e viviam individualmente, sem muitas relações interpessoais, apenas se envolviam quando era para falar mal da vida dos outros. Essa era a cidade de Le Plie.

Nela viviam algumas pessoas boas, muito poucas por sinal, que faziam bem para os outros. Seus apelidos, como eram conhecidos pelas más línguas, eram Père Noël e Blanche-Neige. Dá para perceber como as coisas são por lá, uma vida sem sentido em que o bem não interessava. O bem era só uma parte idiota que precisava existir para que as pessoas pudessem falar mal das outras.

Hei de crer que um dia tudo isso vai mudar, mas enquanto não muda que conheçamos mais alguns miseráveis dessa cidade. Jean Coullet era uma das figuras mais perversas da cidade, conhecido como Le Shérif, era o homem mais temido dentre os mais temidos. Seu dinheiro nem era tanto, mas sua arma sempre carregada empunhava certo respeito, respeito esse que ninguém ousava quebrar.

Dainele Talonneur era a mais famosa meretriz da cidade, uma mulher bela e livre sexualmente, e que por isso fazia os homens ficarem loucos por ela. Trabalhava no mais famoso cabaré da cidade, o Ciel de Plie. Mas apesar de tudo isso, guardava um grande coração. Seu sonho era achar um príncipe encantado, poder finalmente ter uma vida comum, ter filhos e amar alguém para o resto da vida. O único problema era que Dainele adorava sexo, e os miseráveis dessa cidade não viam isso com bons olhos.

Outra personagem importante dessa cidade era o Marquet de Dubet, o fanfarrão da cidade. Filho de pais ricos, Marquet nunca precisou trabalhar, bastava ter o sobrenome Dubet que já era suficiente. Com a morte dos seus pais anos atrás, ele teve que assumir a empresa da família. Mas esperto como era, resolveu dar um emprego de presidente a um funcionário da sua casa, e assim ele poderia viver livremente, bastava existir.

Essa era a pequena cidade de Le Plie, a mais perversa cidade de toda a França, e quem sabe de toda a Europa. Contudo Le Plie não era só tristeza, tinha os campos verdes, a água cristalina, a praça central, e também um belo sol, que não pertencia à cidade, mas parecia brilhar muito mais por lá. Sol esse que decidiu ficar para sempre.

Era um domingo, como qualquer outro, e ninguém fazia nada mais do que o usual, o que sempre faziam em um domingo a tarde. Exatas 16:39 no relógio que ficava em frente à igreja que quase ninguém ia. De repente tudo parou, e por dez minutos não se ouviu barulho algum. No céu, durante dez minutos, uma escuridão tomou conta. De repente, não mais que de repente, um clarão veio nos olhos de todos os cidadãos da cidade, e de agora em diante só se via um sol, o sol das 16:49, que nunca mais passou.

Num primeiro momento pareceu que tudo se tratou de um grande eclipse feito por mãos divinas. Porém todo mundo lá imaginava que não, dessa vez tinha sido algo diferente, algo nunca antes visto pelos povos comuns. E era mesmo, essa tarde de domingo seria a mais longa do ano, aliás, ela nunca mais passaria.

No bar e nas janelas da cidade o povo comentava que tinha sido uma obra de Margaret Ferrand, a química da cidade que muitas vezes era chamada de bruxa. Mas Margaret só fazia remédios que iriam ajudar a curar as doenças desses miseráveis, pena que ela não curava a miserabilidade.

Sem usar nenhuma prova, Jean Coullet e alguns amigos se dirigiram a casa de Margaret para tirar suas satisfações. E ela foi atendê-los na porta.

- Quem fez isto? – indagou Jean.

- Quem fez o quê? – a senhora Margaret perguntou morrendo de medo.

- Isto, olhe para o céu sua idiota, o que você fez? – perguntou ao segurar a cabeça da mulher com grande força e aponta-la para o céu.

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