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Carregue um fardo em seus ombros por tempo suficiente e quando ele partir sentirá que pode voar

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Carregue um fardo em seus ombros por tempo suficiente e quando ele partir sentirá que pode voar.

Por isso, o latejar na planta do meu pé machucado não me incomoda. Os tapetes felpudos roçam contra minha pele apenas pelo breve segundo de impacto e deixo um rastro de sangue por onde passo. Mas não há um pingo de espírito de desistência em mim. Meus pés agora estão livres. E eu também.

Corro por minha vida. Estandartes e escudos e adornos e vasos passam pelo meu campo de visão como um borrão conforme tudo dentro de mim me instiga a prosseguir. Não sei para onde vou. Não refleti longe o bastante para isso. Sou guiada pelo meu instinto, pela necessidade que leva recém-nascidos ao seio de sua mãe ou pela insistência de um pulmão sedento de oxigênio.

O colar de diamantes e rubis pesa no meu pescoço, golpeia-me a cada salto, então com uma puxada forçada arrebento o fecho e o lanço para trás no trajeto. Ele se queda no carpete, reluzindo a luz do luar que passa pelos amplos vitrais. Será que o experimentarão no pescoço de toda moça do Reino à procura de uma substituta?

Sinto a mudança do terreno, do calor das fibras para o mármore suave e gélido da escadaria lateral que leva para fora ao concreto áspero da saída dos criados que poucos conhecem e que me provém minha chance de escapatória. O alívio que sinto é indescritível quando experimento o toque da grama molhada, folhas e geada envolvendo minha pele, e nada me faz recuar ou diminuir a velocidade. 

Nunca tive tanto fôlego. Nunca tive tanta motivação para nada. Eu só preciso sair daqui.

Para reforçar a urgência em meu coração trago à lembrança de forma circular e redundante os acontecimentos das semanas seguintes ao casamento, semanas repletas de tarefas e eventos que exigiam as presenças individuais minha e do príncipe e, por isso, praticamente não nos vimos, exceto por nossa noite de núpcias, uma vez sequer. A distância considerável entre os aposentos reais, cada qual localizado numa ponta do piso, conspirava para que qualquer chance de encontro incidental se tornasse praticamente nula.

Numa manhã, sem anúncio ou alerta, surgiu o Grão-Duque à minha porta, mal acabara eu de ser vestida pelas criadas. Por causa do susto da visita inesperada, emudeci por completo. Sem cumprimentos ou pretensão de qualquer coisa relacionada à cortesia comum, anunciou formalmente que eu e o príncipe faríamos juntos uma aparição pública naquela tarde.

— É do interesse do povo estar informado sobre o bem-estar e a estabilidade de seus governantes. — Explicou, já batendo os calcanhares, anunciando sua saída, e partiu imediatamente.

Pouco antes do horário estabelecido, cercada de um cortejo de nobres e servas, cruzei a metade da distância entre nossos cômodos e observei meu ausente marido fazer o mesmo do outro lado, em total sincronia de tempo e pressa, para que nos encontrássemos exatamente no meio, onde se localizava a sacada que nos revelaria para a multidão. Ao alcançarmos o ponto central, seus olhos cruzaram os meus por apenas meio segundo, só para em seguida desviarem-se para a nossa destinação, ambos voltando-nos automaticamente numa curva de noventa graus para as portas que levavam à tribuna.

A Princesa Errada (conto)Leia esta história GRATUITAMENTE!