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— Você está vestida — Henry balbucia, parecendo surpreso ao entrar no aposento e, novamente, preciso respirar fundo para impedir a mim mesma de cometer algum tipo de violência contra o completo idiota

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— Você está vestida — Henry balbucia, parecendo surpreso ao entrar no aposento e, novamente, preciso respirar fundo para impedir a mim mesma de cometer algum tipo de violência contra o completo idiota. Ao invés disso, apenas reviro os olhos e me ergo para encará-lo.

— Que coincidência — digo friamente enquanto aliso a saia do meu vestido. — Você também está.

O príncipe não resiste um pequeno sorriso, o que vai totalmente contra seu decoro, e fala baixinho:

— Bem... sim. Eu estava numa reunião com as majestades de Württemberg e Schleswig-Holstein. Estar vestido fazia parte do vestuário requerido.

Essa é sua tentativa de um gracejo. Normalmente eu afetaria humor. Riria mesmo sob o sofrimento de minha prisão, riria em qualquer ocasião que não fosse esta noite. Há coisas demais em jogo.

Minha vida, na verdade.

Eu o encaro longamente, esforçando-me por situar-me mentalmente no meu predicamento. Quando eu era criança, eu costumava ser capaz de fugir de qualquer situação em pensamentos. Essa habilidade particular deixava minha mãe louca porque fazia com que eu me deliciasse sempre que me trancava no quarto de vassouras a fim de me disciplinar.

O que pensava naqueles instantes?

Viajava longe, criando aventuras e passeios por lugares inalcançáveis. Imaginava castelos exatamente como esse, vestidos e jóias como os que carrego comigo, um príncipe perfeitamente ao estilo do que está diante de mim. Era o meu céu.

Por que, agora que estou aqui, minha mente me leva àquele simples quartinho apertado, grãos de poeira e teias brilhando à luz do sol, e doces canções balbuciadas por meus lábios de menina? Não, aquele era o meu céu. Eu era tão mais livre por trás daquela porta de madeira cheia de farpas e o futuro, o plano das possibilidades, aberto diante de mim. Eu poderia ser quem eu queria ser, no momento que o desejasse.

Diante de mim agora há um homem. Ele acaricia distraidamente uma abotoadura dourada de seu uniforme com um olhar inquisitivo no rosto, que sei por certo irá se transformar em apenas alguns instantes.

Eu preciso contar a verdade.

— Devo chamar sua criada para ajudá-la a se despir? — ele pergunta e, antes de ouvir resposta, já caminha velozmente em direção ao pequeno sino em minha cabeceira.

— Não! Henry... — clamo, dando uma passada apressada para impedi-lo e, neste instante, sinto o impacto do passo não-calculado do cristal contra o assoalho. Ouço o barulho de vidro se espatifando antes de sentir a dor lancinante de cacos penetrando a pele da planta dos meus pés.

Não encontro forças nem ao menos para gritar.

Henry gira nos calcanhares e paralisa. Quando ergo lentamente as diferentes camadas da saia do meu vestido, até a última barreira de tule, a mera visão me causa vertigens. E é assim que acontece minha revelação: na forma de um pé arroxeado, espremido e deformado contra os contornos transparentes e brilhantes do calçado, e o outro, coberto de sangue e farpas diminutas sobre os restos reluzentes de cristal.

A Princesa Errada (conto)Leia esta história GRATUITAMENTE!