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Essa não é quem sempre fui

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Essa não é quem sempre fui.

Não se trata apenas do peso das jóias reais sobre a minha cabeça e o meu pescoço. Não é a prisão do espartilho e dos sapatinhos de cristal. Não são apenas meus pés que precisam se amoldar.

É toda minha existência.

Enquanto encaro meus próprios olhos no espelho, revivo a alegria da minha mãe e o apoio manchado de inveja de minha irmã, quando o caro Grão-Duque anunciou que eu era o perfeito encaixe.

Foi por elas que o fiz.

Sim, o príncipe Henry era o sonho de todas as meninas do Reino. Afinal, quem nunca quis ser uma princesa? 

Mas, não, não foi por ele, nem pela coroa em si.

Após a morte do meu pai, minha mãe sacrificou tudo para que tivéssemos chances de um futuro digno. A renda de cinquenta táleres ao ano mal era suficiente para manter a propriedade. Ou mantínhamos as aparências ou nos alimentávamos. Então, qual a única coisa que uma mulher nobre poderia fazer?

Casar-se novamente, é claro.

Casou-se. Com um homem tão claramente ainda abobado de paixão por sua finada esposa e sua filha legítima que não nos restara nada parecido com o afeto de um esposo ou de pai. Era claro que não nos via quando seus olhos nos divisavam. Sua imaginação era povoada de fantasmas, reflexos, imagens de um tempo de alegria e realização, cantos e risadas, luz e cores, coisas que sumiram no dia em que sua amada fora enterrada. Era no passado que desejava viver e era o passado que preservava. Não podíamos tocar em nada da casa. Tudo precisava ser mantido do jeito que sua querida um dia determinou. A posição das cadeiras, seus vestidos no closet, a mesma criadagem lenta e caduca, até mesmo a disposição e o tipo de flores no jardim.

E eu entendo. De verdade.

Mas também nós precisávamos de um pai. Também nós desejamos segurança e felicidade e afeto e escolha. Mas acho que seu coração era pequeno demais para conter qualquer coisa além da falecida e de sua preciosa Ella.

Por isso, tão logo se juntou à amada no túmulo, finalmente tomamos para nós a liberdade. Ainda estava de vestes de luto, quando minha mãe mandou que todos os servos, tão leais aos antigos patrões que mal disfarçavam respeito diante dela, fossem embora e exigiu de todas nós que nos esforçássemos para manter-nos até que novos empregados fossem achados.

É claro que a dondoca e mimada Ella se recusou.

Nunca passou por necessidade. Nunca teve que lutar por nada na vida. E, por isso, jamais seus dedos preciosos e delicados tocariam trapos de limpeza.

Ridícula.

Mamãe a disciplinou imediatamente. Ela teria que descobrir que a vida não é um conto de fadas e que, às vezes, é necessário fazer coisas que nem sempre queremos. Então, de castigo, Ella teria de limpar naquela noite a fornaça, o que era um trabalho simples, mas desagradável, o que fez com que eu e minha irmã secretamente sentíssemos um alívio incrível de não ter de fazê-lo.

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