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O meu povo tem uma expressão para a forma cautelosa como às vezes é necessário lidar com certas situações e pessoas

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O meu povo tem uma expressão para a forma cautelosa como às vezes é necessário lidar com certas situações e pessoas. Diz-se "pisar em ovos". Algo desconfortável pelo qual podemos passar em momentos esporádicos da vida. Significa que basta um movimento em falso e você acaba com uma lambança.

Mas os riscos para os meus passos são muito mais elevados.

Eu piso em cristal.

Todo santo dia da minha maldita vida.

Ouço seus sussurros enquanto avanço lentamente, cada pisada leve e adiantada como a de uma garça, as abas de meu vestido cascateando a cada impulso.

— Sofre de algum mal de cabeça, só pode. — Meneiam a cabeça e me encaram com olhares ao mesmo tempo intrigados e enojados.

É isso que dar casar com alguém do povo. Hunf, bem feito — outra nobre conclui estalando os lábios. Eles riem.

Aprumo a postura e continuo meu trajeto com passadas ruidosas, minha trêmula walk of shame, mãos postas sobre o abdômen contraído, os ombros hirtos e o peito erguido, como se uma linha fina e esticada ao máximo o conectasse às distantes abóbadas do palácio. Quando alcanço as portas de madeira cobertas de decorativos ferrolhos e entalhos negros, amplas suficientes para a circunferência da minha saia e altas o suficiente para estandartes e lanças, os guardas se afastam e as empurram para me dar passagem.

Princesa. — Henry salta de seu assento assim que adentro o cômodo e removo automaticamente uma luva de seda creme para que beije minha mão. 

Seu pai, meu sogro, um velho colérico, barrigudo e careca, me enfrenta com olhos que não disfarçam o incômodo da minha intromissão. O fiel consultor, o Grão-Duque de Neuschwanstein, um homem altivo e franzino que sempre tem no rosto um monóculo ornamental e um farto bigode que se conecta às costeletas, é tio de Henry por parte de mãe e encontra-se de pé ao seu lado, bebericando uma taça de vinho tinto e ignorando totalmente minha presença.

Inclino-me levemente diante de cada um numa pretensa breve reverência, enquanto murmuro:

— Vossa alteza real. — E voltando-me para o rei rabugento. — Vossa majestade.

Não precisaria fazer isso no meu statusde princesa regente e, muito menos, em particular, como parte oficial da família. Mas é minha forma nada sutil, no entanto incontestavelmente respeitosa, de expressar que não sou e nunca serei parte. Não de verdade.

— Como posso ajudá-la? — Após beijar minha mão, Henry automaticamente se coloca em posição de sentido, como se ele fosse um soldado e eu o superior a fiscalizá-lo. 

Toda essa formalidade me parece tão sem sentido, mas é claramente natural a eles. Propositalmente, relaxo minha postura, equilibrando o peso do corpo sobre um só pé, o dorso pendente numa diagonal e permito que uma alça do vestido deslize escandalosamente do meu ombro ao antebraço. Quero que se deem conta por contraste do ridículo de sua sisudez.

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