Parte Um - Lola

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A MORTE NÃO É O FIM DA VIDA, MAS SIM, O INÍCIO DA ETERNIDADE. Bem, pelo menos é o que continuam me falando. Meu nome é Lola Dewitt e essa não é a história da minha vida, mas sim da minha morte. Eu tinha vinte e um anos quando fui atingida por um carro em frente a universidade que frequentava. Eu não sabia exatamente o que tinha acontecido, só que em uma hora estava indo para uma aula chata de Economia Global e, em seguida, estava encarando meu corpo estirado no chão enquanto algumas pessoas em volta gritavam por ajuda.

Lembro vividamente de como aqueles olhos castanhos, que me encaravam todas as manhãs no espelho de casa, me observaram com seu brilho morto. Como os fios loiros de meus cabelos logo ganharam uma tonalidade avermelhada, escurecendo rapidamente com o sangue que eu não sabia de onde estava vindo.

Não tenho ideia de quanto tempo fiquei lá e também não me lembro de muita coisa sobre morrer. Isaac disse que era o choque, que todos que morriam inesperadamente tinham esse susto inicial. Era comum.

A verdade é que, para mim, não tinha nada de comum em morrer, mas eu não disse isso em voz alta, é claro. Algo nele me intimidava um pouco.

Isaac – o encarregado pelos Anjos da Guarda – veio me encontrar na Sala de Espera. Não sei quanto tempo fazia desde a minha morte, mas depois de encarar meu corpo sem vida, vim  parar aqui, com uma senha quilométrica esperando para receber minha sentença e descobrir para onde eu vou – céu ou inferno, imagino. Tudo nesse lugar é meio confuso.

O Primeiro Nível, onde fica a Sala de Espera, não é nada como você imaginaria as dependências espirituais. Nada de longas colunas de mármore e portas entalhadas, com fontes de água cristalina e querubins de verdade tocando trombetas e harpas. É só um lugar cheio de casas no estilo provençal, com dezenas de andares e salas, cheias de cadeiras de metal com estofamento azul escuro manchado, e um balcão enorme onde distribuem senhas e chamam seu nome para as audiências e, então, o julgamento. Quase como uma repartição pública humana, cheia de burocracia e com péssimos horários de atendimento. Foi só quando Isaac apareceu, com a tarefa de me encaminhar para a minha missão celeste – já que eu falhei tão miseravelmente com a terrestre, ele disse – foi que pude sair de lá e esquecer as centenas de milhares de almas humanas que estavam no Primeiro Nível. O anjo me levou até o Terceiro Nível – o setor dos Anjos, e então o sub-nível 1, onde trabalhavam os Anjos da Guarda – e me disse que seus superiores estavam me oferecendo uma nova chance.

Os superiores eram os Arcanjos, que vigiavam cada passo de todos os anjos e angelins – os humanos mortos que conseguiam a proeza de encontrar um lugar em algum dos setores acima da Sala de Espera, como eu. Eles ficavam no Quarto Nível e fui aconselhada a desejar muito fortemente que eu nunca tivesse que ir para lá.

Então Isaac me carregou por salas de aula infindáveis nos últimos dias, forçando-me a assistir a diversos vídeos sobre como ser um anjo da guarda e os diferentes níveis daquele lugar que eu carinhosamente estava chamando de Céu, como a maioria fazia. Aprendi que o Segundo Level era destinado aos Cupidos e que ninguém realmente falava sobre eles, que o Terceiro Nível tinha vários sub-níveis que iam desde os Anjos da Felicidade até os Anjos da Morte e embora os outros seres celestiais falem bastante sobre eles, eu prefiro nem chegar perto. No sub-nível 1, todos estão sujeitos as ordens de Isaac e ele parece bem satisfeito em mandar por ali.

Na noite do meu primeiro dia eu recebi uma nuvem, mais fofa do que qualquer cama que eu já experimentei e que me fornecia com o que eu quisesse. Não havia paredes nas nuvens e, à noite, eu podia ver todas as estrelas no céu – em contrapartida, era obrigada a acordar junto do sol nascente.

Estrelas Perdidas (disponível até 10/05)Leia esta história GRATUITAMENTE!