20 - Intermédio

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Uma vez mais ela acorda assustada. O sonho novamente atrapalhando seu sono. Não era um sonho aterrorizante propriamente dito, mas provocava uma agonia imensa. Tudo parecia real demais, inclusive os segundos finais de consciência sobre sua própria decisão. Parecia impossível agora que ela fosse escolher acabar com a própria vida, por mais que as coisas nunca fossem fáceis.

Ao esfregar os olhos e ver as horas correu para o banheiro, estava atrasada. Apressou-se no banho e colocou a melhor roupa do armário que parecia ser meramente apropriada, pegou uma bolsa e o papel com endereço e coordenadas de como chegar. Desceu as escadas do pequeno prédio sem se despedir de sua mãe, quando pisou na calçada percebeu que estava chovendo. Abriu o guarda-chuva que mantinha dentro da bolsa e começou a seguir as instruções no papel desejando ter sorte, pois as ruas eram desconhecidas e diferentes de onde costumava morar.

Como esperado a sorte não a ajudou e ela acabou perdida após sair do metrô. As instruções no papel diziam que aquela era a estação ao lado do lugar onde deveria ir, mas de alguma forma foi parar no meio de um parque que com certeza era o ultimo lugar que deveria estar. Pelo menos a chuva havia diminuído, assim poderia andar mais rápido. Apertou o passo, correndo por um rapaz alto tirando fotos de uma das arvores, só pôde vê-lo de relance. Que tipo de pessoa tira fotos de arvores num dia como este? Talvez fosse algum hábito de pessoas egocêntricas da cidade grande. Quando saiu do parque decidiu pedir informação para alguém prestes a atravessar a rua, porém, não foi de grande ajuda. Começou a dar dez passos para frente e dois para trás tentando se certificar de que não havia passado por ali ainda, a essa altura nem adiantaria aparecer, havia perdido o compromisso. Agora era preciso descobrir como voltar para casa, frustrou-se consigo mesma por não ter anotado as coordenadas de volta. Não que estivessem sendo de muita ajuda de qualquer maneira.

As calçadas eram maiores que as ruas da sua cidade natal e apinhadas de gente com pressa por todos os lados. Seus pés molhados dentro do sapato começavam a dar sinais de cansaço e parecia não leva-la a lugar nenhum. Numa das ultimas esquinas da grande avenida um mural colorido e chamativo lhe deu certeza de que não estava onde deveria e que dali só poderia regressar. Ela atravessou a rua com passos largos, carregada pelo fluxo de pessoas tentou seguir as placas e passou por um museu, mas aos seus olhos era apenas uma grande casa de arquitetura velha. A chuva voltou a ficar forte e seu guarda-chuva era pequeno demais para detê-la, então foi obrigada a buscar abrigo no primeiro edifício que lhe chamou a atenção. Era um prédio envidraçado que para sua surpresa apresentava uma exposição que pelo menos ajudaria a matar o tempo, naquela hora do dia o lugar estava quase deserto se não fosse por um garoto que vestia um casaco preto grande. Ele parecia concentrado olhando algumas fotos penduradas enquanto ela queria aproveitar para descansar seus pés por um instante.

Demorou quase uma hora para que pudesse sair novamente e enfrentar o tempo frio com suas calças molhadas até os joelhos. Foi a ultima pessoa a deixar a exposição e a preocupação de retornar muito tarde a fez mover-se mais rápido. Tentar encontrar o caminho a noite parecia ser muito mais difícil, as luzes do centro da cidade podiam deixa-la tão admirada quando desnorteada. Por alguma razão achou que se seguisse a rua paralela á avenida teria mais sorte, mas não tinha nada por ali então assim que chegou num farol retornou para as calçadas grandes e sua estratégia de seguir placas.

Era um daqueles dias que tudo parecia dar errado. A chuva não cessa, o casaco não está na bolsa, o despertador não toca, pessoas passam com pressa em dobro. Ela parou antes de atravessar para o outro lado daquela esquina tentando ajeitar o guarda-chuva. O metrô era mesmo por ali? Parecia hora de pedir informação novamente. O guarda-chuva emperrado a distrai do fluxo de pessoas, a chuva volta a cair grossa e a pressa a faz xingar entre dentes, sacudindo o guarda-chuva desajeitada. Antes que pudesse se deter acaba acertando um rapaz. Envergonhada, vira-se para se desculpar e constatar que ele não havia se machucado, ao invés disso ele ria enquanto esfregava o olho.

Naquela quarta-feira chuvosa, num daqueles dias em que tudo parecia dar errado, na esquina esquecida de nome Teixeira alguma coisa que abrigava uma grande casa amarela de pintura surrada e muros vandalizados, sob uma vigília cuidadosa e invisível, os olhos negros e os olhos âmbar se encontraram novamente.

*** Fim ***


Mais uma vez muito obrigada a quem acompanhou Intermédio até o final e realmente se interessou pela história. Não sabem o quanto me fizeram feliz e me deram forças para continuar ♥

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