Prólogo

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De sua nuvem, Isaac tem uma visão privilegiada do pôr do sol. Ele pode ver onde os tons de laranja começam a ceder ao roxo e desaparecem no manto negro da noite, pode acompanhar o sol se escondendo no horizonte enquanto o trabalho dos anjos da guarda continua. Eles nunca têm descanso, seus protegidos precisando de ajuda dia e noite, chamando por eles de forma inconsciente até em seus sonhos. Os humanos têm o péssimo hábito de meter os pés pelas mãos.

Bem, com exceção da protegida dele. Ela preferia não meter as mãos ou os pés em lugar algum. O que não era necessariamente algo bom para eles.

Ele sente quando alguém se aproxima, mas não se move. Não precisa virar-se para saber quem é e muito menos para saber o que o leva até ali. Fica em silêncio, esperando o outro anjo se pronunciar. A agitação é quase palpável.

— Eu decidi. – a voz infantil demais se pronuncia, mal conseguindo conter a empolgação.

Isaac não precisa perguntar qual foi a decisão do colega, já sabia qual seria desde o primeiro momento em que ele se aproximara para falar sobre a sua Queda, dias atrás.

Não era todo anjo que tomava a decisão de cair – a grande maioria não escolhia, mas sofria a Queda por se render a algum dos pecados capitais ou mortais. Cair era um negócio sujo, era abdicar da única vida a qual conheciam para se lançar no estranho e perigoso mundo dos humanos. Mas alguns poucos se apaixonavam e, vez ou outra, decidiam-se por cair; arriscar-se na aventura humana de amar o semelhante, de criar uma unidade familiar. Era, geralmente, os mais novos e imprudentes que escolhiam esse caminho.

Anjos Criados eram diferentes dos anjos que um dia foram humanos. Estes últimos, chamados angelins, não podiam cair, pois já tiveram sua chance de viver – e provavelmente desperdiçaram – já os anjos criados, que nunca foram humanos, recebiam da Grande Divindade a chance de viver e morrer como humanos, caso escolhessem Cair.

Isaac nunca entenderia por que, depois de passar tanto tempo com os humanos, qualquer um deles cairia por livre e espontânea vontade. Apreciava muito mais quando precisavam chutar um anjo corrompido aos gritos pela Porta do Infinito do que quando a abriam para um anjo sorridente se jogar.

— Se importa de compartilhar? – pergunta, mesmo sem a necessidade e com a latente vontade de lhe apontar as centenas de humanos caminhando pelas estradas erradas como forma de dizer "é isso que quer para você?".

O anjo ao seu lado o encara, mas Isaac não retribui. Ele tem um sorriso apreensivo no rosto, e observa as mãos por um momento.

— Eu vou Cair. – fala devagar, como se, ao dizer em voz alta, aquilo já começasse a se concretizar.

-- Você sabe o que isso significa, não é mesmo? – o anjo não se move. Isaac quebra o contato visual com o céu para observá-lo. – Não poderá voltar a ser um anjo, quando morrer. Não se lembrará de seus dias aqui, da sua antiga vida. O tempo irá parar, você terá pais e uma vida humana, frágil e suscetível aos males da humanidade.

O anjo ao seu lado permanece em silêncio, avaliando as palavras de seu chefe. Por uma fração de segundos, Isaac acha que fez com que ele reconsiderasse, mas aos poucos um sorriso honesto surge no rosto do recém-criado. Ele conhece aquele tipo de sorriso tão bem que chega a doer em seus ossos. Tolos apaixonados.

— Vai valer a pena, por ela eu sei que vale. – ele observa Isaac, mas seu rosto não mostra qualquer expressão.

— Você não vai reconhecê-la. Terá apenas pistas levando-o até ela. E ela pode não estar destinada a você, anjo. Tem certeza disso?

O sorriso continua no rosto dele, confiante e sem hesitação, como só o amor é capaz de ostentar.

— Sim, eu tenho.

Respirando fundo, Isaac levanta-se e estende a mão para o outro anjo, ajudando-o a levantar-se.

— Muito bem. Encaminharei seu pedido aos superiores. Não deve demorar muito agora. Pode começar a se despedir de seus amigos, não os verá mais também.

Caindo por amor. Isaac sabe que a maioria faz isso sem nem mesmo entender o que amor significa. Se ao menos eles entendessem  que o amor não era imutável, que englobava um milhão de outros sentimentos. Se ao menos eles soubessem que amar não era garantia de felicidade ou se tivessem qualquer ideia do quanto ainda precisam aprender sobre ele... Quem sabe não escolhessem cair. Ou quem sabe escolhessem de toda forma, afinal, era a regra primordial do amor: nos faz agir de forma imprudente e, por vezes, estúpida.

Em um forte lampejo de luz, o anjo desloca-se para os escritórios centrais do Céu, para cumprir um papel que acha demasiado irritante. Os anjos que escolhem Cair não sabem a burocracia que isso envolve. E muito menos o que os aguarda depois.



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