Análise

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   Pablo ficou totalmente embasbacado diante da constatação que o afligia. Seu rosto queimava e os seus olhos não conseguiam encarar a mulher diante dele. Ela era tão jovem, tão prudentemente segura na sua posição de analista que ele não podia duvidar da impossibilidade intransponível estabelecida ali. Ele testara, tentara romper aquele campo de força em vão. Naquele último fim de semana brigou por quase uma hora com o telefone em suas mãos antes de fazer uma ligação. Era sábado, passava de nove horas da noite e ainda assim ela o atendeu. O tom de sua voz era suave, porém as frases que formavam eram diretas e claras. Ela cortou qualquer investida com delicadeza e ele continuou tentando lutar contra aquele sentimento que não cedia e nem vencia.

   Há quatro meses a solidão apoderou-se de sua vida. E não era uma solidão pura e singela, sim passional, dolorida e imposta pela traição que sofreu. No decorrer de todos aqueles sentimentos e reações apenas uma mulher na trilha, aquela jovem e bela analista. Ela apareceu como uma pequena fagulha na escuridão e ali foi crescendo e tomando as formas de um acalento que o reconduzia à vida.

   Então, um desejo imenso tomou conta daquela cena, seria ela a única mulher capaz de lhe confortar num amor seguro? Ela não dava todas as respostas, aliás, deixava-as quase totalmente em aberto sempre. Ela não lhe dava um mísero sinal de reciprocidade e nem ao menos lhe revelava sua vida pessoal. Mas tudo isso não a desmerecia talvez até cobrisse daquele mistério feminino tão atraente.

   Ele contorcia-se na poltrona, não era capaz de conseguir uma posição confortável, menos ainda encontrar uma palavra para começar a falar. Ela aguardava com o velho olhar compenetrado e paciente, marcado pelo seu silêncio tão usual.

   "Você estava certa. Era uma loucura o que eu pretendia." – decretou ele enfim. Há mais de um mês travavam uma guerra argumentativa em torno de uma decisão cruel que lhe arrancaria a possibilidade de concretizar seu maior desejo. Ele estava totalmente estagnado na posição de insatisfeito e finalmente deixava uma porta aberta de sua prisão.

   Ele posicionou a mão direita no seu queixo elevando-o e mirando a parede branca: "Talvez eu encontre uma moça bonita com quem eu possa compartilhar minha vida com amor". Ele fez uma pausa sem a encarar: "Achei que a tivesse encontrado, mas eu vi que não posso tentar me aproximar mais...". A analista continuou calada, ele talvez esperasse algum sinal de incentivo que jamais chegou. De repente, ele fez um movimento brusco sobre a poltrona, virou-se diretamente para ela e a encarou apoiando os cotovelos sobre os joelhos: "Aquele fusca azul estacionando lá fora é seu, não é? Porque eu encostei meu carro no pára-choque dele quando estacionei agora." A analista corou o rosto rapidamente, fez um sinal de positivo com a cabeça. Ele, então, mudou de assunto recostando-se novamente a poltrona. E ela percebera que fora uma provocação.

   Naqueles únicos segundos ele atravessou a carcaça de analista e encontrou uma mulher e assim viu a diferença. Viu que todas aquelas investidas realmente não a tocaram, ela não se deixara corar em nenhuma delas.

   Ao final da sessão, enquanto se dirigiam para a porta, ele tentou um último golpe de sorte: "Até semana que vem moça bonita". Ela nem ao menos lhe lançou um olhar, abriu a porta e lhe acenou cordialmente com um "Até breve."


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