08. O Hospital

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Uma semana se passou em agradável monotonia. Dylan manteve-se ocupada realizando as tarefas designadas para ela, sempre ansiosa para estar fazendo algo. Usualmente, pegava-se divagando sobre os noticiários que havia assistido, sobre a saudade que sentia de Harold e Miltred e sobre o destino de Doug. Sobre o mapa. Seus dedos encontravam o pingente de identificação sempre que pensava nele.

As atividades, claro, a distraiam, e distração a impedia de encarar as criaturas além da cerca. Durante um dos dias, graças à considerável quantidade de infectados, os irmãos Clark e alguns outras pessoas saíram para atraí-los para longe como faziam todas as noites. Eles montaram na caçamba de uma picape, com facões e machados em mão, e dirigiram com lentidão para levar a ameaça para longe, usando um rádio antigo e amplificadores para chamar a atenção das criaturas. O que foi feito com as aberrações, no entanto, só pôde ser deduzido. Dylan viu os resistentes voltando, horas depois, com as armas manchadas de sangue escuro e um galão de gasolina vazio na caçamba da caminhonete.

Ela lutou para não pensar mais naquilo. Funcionava quando deixava as preocupações migrarem para coisas mais simples. Cuidar das crianças, por exemplo, vinha se mostrando uma tarefa satisfatória. Como quando Dylan trabalhava de babá em seu bairro, tomando conta de quase quatro crianças pelo decorrer da semana. Ali o número se repetia, com a adição de Max, que se mostrara bastante extrovertido a partir do momento em que conheceu melhor os moradores – e Deus do céu, ele o fizera logo no segundo dia de convivência. O curioso garotinho vinha ganhando a simpatia de todos os residentes, principalmente de Machete e Jake, que ele sempre abordava para conversar quando não tinha mais o que fazer.

Era fim de noite e o clima ficava mais frio a cada dia. Dylan recebeu de Beatrice um largo suéter de lã e a promessa de que, numa das próximas incursões, a líder acharia roupas que servissem melhor nela. Hannah era muito alta, mas a única compatível com as formas magras de Dylan.

A garota não se importou. O primeiro ar frio que cortou a segunda noite ali já a fez agradecer por ter mangas maiores do que os seus braços.

Os dedos gelados, agora envoltos num par de luvas de lã cor-de-rosa pertencentes à Hannah – enquanto ela dormia, Dylan emprestava algumas peças dela e vice-versa – colocaram a última caixa de utensílios no refeitório vazio.

Judith estava lá em cima, descansando para pegar o turno extra daquela madrugada. Dylan ouvira Jake falando sobre uma viagem rápida, que duraria alguns dias, e imaginou se tratar daquela prometida por Beatrice. Quando teve chance de perguntar a Íris, a mexicana avisou que era bem mais complicado.

– Precisamos de outro gerador. – ela bufara, polindo a nova machadinha de estimação, ganhada de Machete num jogo de pôquer. – O que temos aqui é resistente, mas fraco. Jake acha que pode fazer um maior funcionar. Alguém levou o gerador decente daqui antes de chegarmos.

– Vamos ter energia elétrica e chuveiros quentes? – Dylan imaginara tomar aqueles banhos gelados durante o inverno e sentiu desanimação imediata.

– Não temos certeza ainda, mas teríamos um belo aquecedor. – Íris sorrira. – Já é um começo para o tempo frio que se aproxima.

E se aproximava depressa, pelo que Dylan vinha notando. As madrugadas estavam começando a exigir mais cobertores, que eles conseguiram em bom estado quando invadiram uma loja de colchões destruída. Íris e Machete trouxeram dois deles, além de vários cobertores deixados para trás. Travesseiros, infelizmente, não foram encontrados.

No refúgio, alguns moradores começaram a pedir por sopas quentes em vez das usuais gélidas refeições daqueles últimos dias. Fogueiras podiam ser uma opção, mas o calor chamava a atenção dos mortos lá fora. Ninguém queria seus olhares atentos demais ao que acontecia ali dentro.

As Coisas que Perdemos [DEGUSTAÇÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!