UM: UMA PROPOSTA INESPERADA

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A crise na economia brasileira afetou todo o conglomerado de empresas privadas, causando cortes orçamentários e redução de pessoal, criando pânico em todos os pobres assalariados sem estabilidade.

Eu trabalhava no escritório de uma grande empresa bancária na época. Dez anos de casa e um rendimento muito bom. Todas as agências da região que era de minha responsabilidade haviam batido a meta de vendas nos últimos dez meses e esse era um feito e tanto em anos normais, mas em era de crise... Era estupendo.

Para falar a verdade, eu e meu ego estávamos esperando uma promoção a qualquer momento.

Acho que nunca poderia ter previsto o que aconteceu, que aquilo estava vindo voando em direção à minha cabeça. Por alguns momentos, me esqueci da realidade que gritava ao meu redor desde que eu viera ao mundo: eu era mulher. E estava fadada a sofrer por causa disso.

É claro, houve uma complicação. Há pouco mais de dois anos, tive um affair com um rapaz no escritório. Não foi o primeiro que me envolvi no trabalho, embora eu sempre tentasse evitar, esse tipo de coisa sempre acabava acontecendo. Eu tinha a cabeça nas nuvens e era só um homem razoavelmente interessante demonstrar que gostava da minha companhia e eu já estava arrastando-o em uma série de piscadelas, charmes e decotes abusados até que acabássemos dividindo um edredom.

Nunca houveram muitos problemas, até Vinícius. Porque, bom, Vinícius era chefe de todo o escritório.

E casado.

Começamos a dança do acasalamento apenas algumas semanas após ele assumir o cargo; estava vindo da grande São Paulo por algum motivo a qual eu nunca me atentei de perguntar. Ele era bonito, inteligente, tinha umas ideias loucas e novas que amarraram minha atenção no segundo em que pus meus olhos nele. Não demorou muito até que ele pusesse os olhos em meus decotes abusados e passasse a ouvir minhas sugestões.

Por dois meses, ficamos nessa de trocar elogios e cantadas baratas. Eu sabia que ele era casado, então, e fiquei um pouco balanceada. Entre meus colegas, porém, rolava um boato de que o casamento dele não ia muito bem e que a esposa tinha ficado em São Paulo e também algo sobre o divórcio já estar em andamento. Não que eu tivesse interesse em algo sério com ele, na verdade, mas me sentiria mal pela esposa caso acontecesse. Aquele boato foi o suficiente para que meu bom senso me abandonasse e eu voltasse a investir em Vinícius.

Ele era alto e forte - forte no estilo um pouco gordo. Parecia um grande urso, imponente e respeitável, do tipo que só a presença põe ordem no lugar. Tinha os olhos em cor de amêndoa e seu cabelo e barba (quase sempre muito bem feita) já tinham os sinais dos seus quarenta e poucos anos, com alguns fios grisalhos. Mas isso era só a cereja no topo: sua inteligência sempre fazia com que minhas pernas parecessem gelatinas e eu tinha que respirar de forma bem ridícula para acalmar meu coração antes das reuniões.

Um dia, ele me chamou para jantar. Um jantar de negócios, ele disse, para definir uma estratégia para as agências que eu comandava, em uma das regiões mais pobres de Santos. Um jantar de negócios, ele disse. Eu fingi que acreditei e vocês também podem fingir que foi isso que aconteceu.

Ele me levou em um restaurante caro, pago pela empresa. Conversamos sobre as estratégias durante os primeiros dez minutos e ele começou elogiando meu cabelo. Quando viu que eu estava gostando e dificilmente o denunciaria por assédio, as coisas começaram a tomar outro rumo e a noite acabou em seu apartamento. Não era muito distante do que eu divido com a minhas amigas, mas infinitamente maior e mais luxuoso. O que eu tenho a dizer sobre aquela noite é que sua cama era muito confortável e, bem, ele fazia as coisas direito.

O clima no escritório parecia favorável para mim, ele sempre ouvia meus projetos e me colocava acima dos outros. Estava tão feliz... Saímos por cerca de três meses antes que ele me chamasse para conversar e dizer que não poderíamos nos ver mais por motivos de ética no trabalho. Os outros começavam a suspeitar, ele disse, mas jamais deixaria de me tratar do jeito que eu merecia; eu tinha realmente boas ideias e era muito bonita e inteligente, ele disse. Seria como se nada tivesse acontecido, precisava ser assim. Bom, realmente foi assim.

[HIATUS] A Caçadora de CanalhasLeia esta história GRATUITAMENTE!