Os opostos não se atraem

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Os opostos não se atraem.

Talvez eles possam se atrair no mundo físico, mas isso não acontece no mundo das ideias, no mundo dos gostos, dos conceitos e das crenças. Comunistas não atraem capitalistas, judeus não atraem palestinos, ateus não atraem cristãos, roqueiros não atraem funkeiros... Pelo menos não que eu tenha visto. E por esta perspectiva - que não é a única, nem a perfeita, mas minha - vejo que os opostos não se atraem, e quase posso dizer que eles se odeiam, que eles buscam anular o outro, ou, em outras palavras, exterminá-los. Eles são a antítese um do outro. Não, definitivamente não. Os opostos não se atraem.

No mundo físico, contudo, eles se atraem e se encaixam, no mundo físico, os opostos se completam. É assim no Tetris, é assim com o parafuso e a bucha, com os dedos das mãos, os braços e os abraços, os corpos, os sexos... Eles se unem, se fundem, deixam as diferenças de lado e se completam. No mundo físico, os opostos se atraem.

Dois iguais não conseguem atingir novos patamares, não conseguem avançar para o novo, não se completam; pelo contrário, os iguais sobram, pois o que um tem, o outro já possui.

Os opostos se atraem. Os opostos não se atraem.

Vivemos num mundo físico, mas somos completamente movidos pelo mundo das ideias. E não me refiro ao mundo das ideias de Platão, não exatamente; apenas, nossas ideias, nossos gostos, nossas crenças, preferências, valores, etc. que podem ser mutáveis se você, tal como Raul Seixas, for uma metamorfose ambulante. Aliás, segundo o filósofo ateniense, as ideias (lê-se: o mundo das ideias) são imutáveis... Mas enfim, não vamos complicar as ideias logo na primeira página, não é?

O que quero é apenas mostrar as diferenças de ser diferente e de se conviver com o diferente. Algo complexo e delicado, que vai, com certeza, envolver sentimentos, mágoas, lembranças e outras coisas mais. O que é bom, pois, do contrário, se fossemos sozinhos no mundo, os sentimentos seriam irrelevantes. E não seríamos diferentes. Seríamos apenas nós, rodeados de "tanto faz".

Ser diferente é diferente de ser inimigo, ser diferente é ser outro, ser alguém, ser excepcional. Ser diferente é ser o oposto, e ser o oposto é preferir começar o dia com o pé esquerdo, estar do lado direito, gostar mais de sombra, odiar os clássicos, e... Tudo bem. Está tudo bem. Mesmo.

Todos nós podemos aprender a conviver com as diferenças, podemos lidar com elas, podemos andar na mesma direção, avançar, evoluir, mudar e correr.

A paixão, a vida, o trabalho, a política, o trânsito, o futebol a música e tantas outras coisas por tantas e tantas vezes passam uma corda em nossos tornozelos e nos ligam à pessoa oposta (quase) para sempre. Assim, sem convidar, sem se importar, apenas chega amarra e vai embora, te deixando ali, sozinho com um estranho - o que, tecnicamente, não te deixa sozinho, mas você entendeu. -, com alguém que você, provavelmente, não vai se simpatizar. Viver a vida, a única vida que temos, ao lado de pessoas tão... Estranhas! (Eca!) Você sabe, é como aquela brincadeira de amarrar a corda no seu pé direito e no pé esquerdo da outra pessoa. Sabe? Qual é, nunca esteve numa gincana? É uma brincadeira para duas ou mais pessoas caminharem juntas e chegar à linha de chegada antes dos outros competidores. É para, apesar de usar pernas diferentes, encontrar a harmonia e sincronia da mecânica, hora ceder, hora teimar; e avançar, curtir, se divertir, vencer! As diferenças são para nós vencermos.

Com paciência, amor, compaixão, prática e doses de humildade, abrindo mão desse e daquele passo, nossas passadas podem entrar em harmonia, sincronizar o ritmo e nos levar longe. A dialética de Hegel, a filosofia de Liev Tolstói e o amor - sim, o amor; aí está ele! -... E o amor desta jovem mulher, Juliana, me mostraram como é possível encarar o oposto, aprender, evoluir e crescer.

Massas de ar e suas frentes, que podem (e vão) causar mudanças, quedas ou elevações, chuva, nevoeiro, mormaço... E, mesmo assim, te deixar diante de um cenário bem conhecido, com cores mais intensas, às vezes com um toque de cinza e algumas dores, com tons de saudades e frustrações, com problemas mendigando nos cantos esquecidos da rua e afogando-se no bueiro, enquanto os cheiros de "eu posso" repentinamente aparecem, feito um exército bem posicionado. Estas coisas todas completam alguns vazios da vida.

- Nossa. Tá um merde! Não está? - digo, buscando o olhar dela no espelho posicionado bem em minha frente.

- Capaz! Tá lindo, Mats. Desencana!

- Você não sabe mentir, Lice. Eu sei que está um merde, e a cerimônia é daqui a poucas horas. Eu tenho que saber o que vou dizer.

- Você já sabe, uai. Vai dizer exatamente o que falou agora. As pessoas vão estar emocionadas, os parentes dela vão estar felizes e pronto, vocês podem ser felizes para sempre.

- Tá namorando! Tá namorando! - Cosmo intromete-se na nossa conversa.

- Eu vou me casar, seu bobalhão.

Meu celular não para de vibrar sob as muitas mensagens que chegam no aplicativo de conversa instantânea.

- Quer saber? - livro-me dos trajes e desfaço o nó da gravata borboleta. - Vamos deixar essa ladainha pra lá. Amanhã eu tenho minha despedida de solteiro e eu quero relaxar desde já. Partiu PUB?

- Só se você me disser que raio de despedida é essa?

- Há-há-há. É claro que eu não vou te contar. É óbvio!

- Matthias!

- É segredo e é particular. Vou trocar de roupa. - tentei forçar um ponto final. - Você vem comigo ou não?

- Amor é um livro. - Cosmo canta num tom acima do necessário.

- Que que você tá arrumando? - questionou-me desanimada e nervosa ao mesmo tempo.

Dei de ombros.

- Mas... Porra! Ninguém sabe nem quem vai com você. Eu tô é achando isso muito estranho. Muito estranho. - alongou a última frase.

- Não fala palavrão perto dele.

- Foi mau.

Me troco rapidamente, vestindo o look mais básico que posso encontrar no meu guarda-roupa - básico porque é, praticamente, a única combinação existente no meu closet. -: bota de coturno, calça jeans escura e camiseta braça. Excelente! Alice se encarrega de dobrar e ajeitar os trajes cerimoniais adequadamente sobre o cabide.

- Vamos?

- Sim, mas antes você precisa preencher um formulário da companhia aérea que está junto ao ticket.

- Ok. Vou fazer isso depois. Vamos ou não? - insisti.

- Demorou! - aceita meu pedido, passando seu braço em torno da minha cintura.

E assim, rumamos para uma grande noitada.

O lugar para onde estamos indo tem muito a ver com esta história toda. Tem muito a ver com a minha história.

A história sobre os opostos, sobre as diferenças e semelhanças, as somas e deduções, sobre as perdas e os ganhos que esta combinação deliciosamente dolorosa nos proporciona (se tão somente estivermos dispostos a tirar proveito disso). Mas, é mais do que isso, é sobre como lidar com isso.

O lugar para onde estamos indo é o lugar onde esta história começou; Mas não é como ela começa...


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