5a. Aparição

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A segunda feira começou como as tantas outras vividas por Porasy. Ela acordou cedo e foi para a escola no ônibus escolar. E agora, perto do meio dia, voltava para casa, no mesmo ônibus.

O conhecido barulho da freada dos pneus indicou que era hora de descer. Eles eram menos de dez adolescentes indígenas que cursavam a escola na cidade. Ainda assim, era na parada deles que desciam mais alunos. Após descerem, o ônibus continuou. Ainda tinha muitos outros alunos, filhos de colonos, para serem deixados em seus sítios e fazendas que seus pais cuidavam.

As crianças pequenas não iam naquele ônibus para a escola. Ou melhor, elas não iam em ônibus nenhum. Elas estudavam em uma sala multisseriada no acampamento mesmo. Uma briga fora travada até que a prefeitura concordasse em pagar dois professores indígenas para que dessem aulas ali, do primeiro ao quinto ano. Primeiro e segundo em um período, terceiro, quarto e quinto no outro. Todos juntos em uma mesma sala, com um único professor. E por isso mesmo, e também porque falavam outra língua na aldeia, a maioria dos alunos chegavam bem fracos nos estudos ao migrarem para a escola na cidade, isso é claro, comparando com os conteúdos dessas escolas, que jamais se preocuparam com a realidade indígena. Como consequência, muitas vezes, reprovavam no primeiro ano lá. Isso era quase comum.

— Cadê o vô? – Foi a primeira pergunta que Porasy fez para a irmã ao chegar em casa. A irmã não tinha ido, de novo, para a escola. Muitas vezes ela tinha de ficar, para cuidar do barraco e de crianças pequenas, quando os adultos precisavam fazer alguma coisa fora do pequeno agrupamento de casas.

— Foi todo mundo para Taquara, para dar apoio contra o despejo. Foi o vovô, os tios, as tias, o pai e a mãe.

Porasy olhou ao redor, antes de entrar e pendurar a mochila. O local estava silencioso. Sinal de que a maioria dos pequenos também tinha ido.

— Foram de quê?

— De ônibus. Conseguiram um ônibus para levar o pessoal. Acho que foi a Aty Guasu que conseguiu o ônibus.

Aquilo não era novidade para Porasy. Isso sempre acontecia. Sempre que havia uma ordem de despejo para alguma das aldeias, as pessoas das outras aldeias, na mesma situação, se mobilizavam e se deslocavam para o local, para apoiar e dar força. Muitas vezes funcionava, mas nem sempre. Como não funcionou uma vez, com o outro avô, pai de sua mãe. E seu coração se apertou com a lembrança do cruel e covarde assassinato do avô, em uma situação semelhante. Ela era muito nova ainda, talvez tivesse uns cinco ou seis anos na época. Mas se lembrava muito bem

— A Amandy foi? – Porasy perguntou, sentindo falta da irmãzinha.

— Foi sim. Você sabe que a mãe não deixa ela.

Porasy olhou para as panelas que a irmã cuidava: Arroz, feijão, um ensopado de mandioca e carne moída. Era um prato repetitivo naquela casa. Mas ela gostava dele ainda assim. O cheiro apetitoso que alcançou seu nariz fez a barriga reclamar ainda mais de fome. Pegou uma vasilha com água, foi para fora e lavou as mãos. A irmã já estava se servindo. Em seguida ela foi para o banco sob a árvore onde seu avô gostava de ficar: o banco do seu avô. Porasy se serviu também e foi sentar perto da irmã. Aquele silêncio em volta era angustiante.

— A gente devia ter ido também – disse Porasy.

— E quem ia ficar cuidando do nosso barraco? – Perguntou a irmã.

— Cuidar do que aqui? Aqui não tem nada para ser roubado. E de mais a mais, que diferença vai fazer nós duas aqui sozinhas?

— Não estamos sozinhas. Você sabe que os barracos jamais ficam sem alguns dos adultos. Em algumas casas ficaram outras pessoas.

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora