Capítulo 03: Guerra Civil

136 12 0
                                              

Egito, Terra

Avary acordou de repente, sentando na cama, como se tivesse acabado de voltar do Reino dos Mortos. Respirou fundo algumas vezes, ofegante, tentando lembrar do estranho sonho da noite anterior. Claro que devia ter sido um sonho, afinal, deuses mitológicos não existem e ela não era capaz de pular entre telhados de casas, ainda mais usando um baby-doll.

Ela virou-se para levantar, e sentiu muita dor nos joelhos, no mesmo lugar em que no sonho havia se cortado no teto de uma casa. Com medo, olhou para o local, mas não viu nada. Aliviada, ela levantou-se devagar e, apenas então, notou que estava sem o baby-doll, apenas de lingerie. Ela gritou, esperando que os vizinhos não tenham ouvido, pois não queria ter que abrir a porta para eles.

Respirou fundo, tentando se acalmar; não poderia ir à loucura depois de sua primeira noite no Cairo. Seu pai riria dela se soubesse que isso aconteceu. Procurou pela roupa de dormir, mas não a encontrou. Aos poucos foi se lembrando do sonho; lembrou-se que, enquanto saltava entre o telhado de duas casas, ela decidiu que o baby-doll estava atrapalhando, por isso jogou-o fora.

Tentou não pensar nisso; havia uma explicação lógica, e ela tinha de descobrir. Quando foi tomar banho, encontrou-o jogado ao lado do vaso. Respirou aliviada. Provavelmente sentira calor durante a noite, fora ao banheiro e tirara o baby-doll. Ela já fizera coisas parecidas em casa e nunca se lembrava depois de acordada.

Uma vez nua, entrou debaixo do chuveiro – estava com o cabelo preso; não tinha humor o bastante para lavar seus cachos – e aproveitou o banho gelado, aliviada de que não estava ficando louca. Avary vestiu uma calça legging e uma camisa cumprida, de modo que cobrisse sua bunda – ela não queria escandalizar os egípcios assim, de cara; conhecia a cultura o bastante para saber que não poderia vestir-se de qualquer jeito.

O dia foi, outra vez, de faxina. Limpou o quarto extra vazio – o cômodo que foi mais fácil – ali, decidira fazer um quarto de estudo; um oásis de silêncio para estudar. Depois foi a sala e, por fim, a cozinha e a lavanderia adjacente; quando terminou, ainda era de tarde. Foi, então, comprar alguns móveis que faltava, como raque e televisão, mas, principalmente, móveis para sua sala de estudo. Comprou uma boa escrivaninha e uma cadeira confortável, além de duas estantes para seus livros – os quais o pai mandaria via correio dentro de alguns dias.

Enquanto voltava para casa, notou um grupo de estudantes acampados diante da Universidade. Estranhou, já que ainda faltava meses para o começo das aulas, em setembro. Ignorou-os; passou em um mercado, onde comprou comida. Ela estava acostumada a cozinhar comidas árabes – nos últimos seis meses, vinha praticando, antes mesmo de decidir vir ao Egito.

Depois de quase queimar um dos Pastizzi, e comê-los mesmo assim, ela tomou outro banho e se deitou. Para garantir, ela resolveu dormir de shorts e uma camiseta – nunca se sabe se você não vai, de repente, resolver pular pelos prédios da cidade novamente.

– Vamos. Está de noite e, portanto, é a hora do gato. – Ela ouviu uma voz de mulher; reconhecera do sonho que tivera com Bast; quando abriu os olhos a deusa estava ao pé de sua cama. – Você é boa, mas ainda precisa melhorar.

– Do que você está falando? – Avary perguntou, um pouco com raiva, estava cansada daqueles sonhos estranhos. – Estou cansada de sonhar com você!

– Não é um sonho. Ontem à noite não foi um sonho. – Bast arregalou seus olhos gatunos, como se tentasse ler a alma de Avary. – Quando você aceitou ser meu receptáculo, você adquiriu todas as minhas habilidades, mas não sabe usar com perfeição e precisa saber muito bem do que é capaz se quisermos prender Apófis de volta no Duat.

Ao perceber que a morena não estava entendendo nada do que estava falando, Bast contou sobre o que tinha acontecido no Duat meses antes. Contou sobre a batalha que ela e Rá travaram contra o deus do caos no Mar de Escaravelhos; contou o que ela estava fazendo ali e o que tinha de ser feito. Avary entendeu, mas havia um pequenito problema: ela não acreditava. Não tinha como acreditar que dois deuses mitológicos – ou seja, que não existem; que são um mito – haviam escapado e que ela tinha a função de ajudar um deles a deter o outro.

Histórias Curtas do Sétimo UniversoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora