Foram cerca de três horas de um choro sofrido e agoniado até ouvir a voz de Felipe novamente, do lado de fora de casa. Além de sua voz, pude ouvir outra pessoa falando e imaginei que fosse a Thabata. Sempre gostei dela, até aquele dia. Transtornada, sem pensar nas consequências, desci a escada como um tiro e fui até a mulher que estava parada diante de Felipe e a empurrei para longe. Nunca fui uma pessoa agressiva, mas aquilo estava me matando! Felipe correu para ajudar a mulher a se levantar, enquanto eu gritava, quase histérica, que era para ela sumir dali, para ficar longe dele. Apesar da queda brusca e do arranhão no braço direito, a mulher, que depois eu vi que não era Thabata, e Felipe riam. Eu sentia meu sangue ferver e aqueles dois idiotas estavam rindo? E quem era aquela vagabunda? Do que eles estavam rindo?

Meus pais apareceram poucos instantes depois, na porta da garagem dos fundos, os estávamos, e ficaram parados observando aquela cena bizarra. Notei que as mãos de meu pai tremiam, embora seu rosto não demonstrasse nenhum sentimento. Estava estático. Com doçura, minha mãe se aproximou de mim e me guiou para dentro de casa, sendo seguida por meu, Felipe e a mulher desconhecida.

Acomodados na sala de estar, minha mãe me trouxe um copo de água com açúcar, enquanto meu pai e Felipe faziam um curativo no braço da mulher, que descobri se chamar Fabíola. "Está mais calma, filha?", minha mãe perguntou, carinhosa como sempre. "Estou, mãe. Desculpe por isso. Me desculpe. Não sei o que deu em mim", respondi, envergonhada por ela e meu pai terem me visto naquele estado. O que eu poderia dizer para eles para justificar aquela merda toda? Que vergonha... "Não tem porque se desculpar, filha. A gente nem sempre consegue controlar essas coisas", meu pai se intrometeu na conversa, o que me deixou desesperada. "Que coisas? Do que você está falando, pai?", questionei, assustada, olhando em seguida para Felipe, que me encarava, aflito. "Tem certeza que você não sabe do que seus pais estão falando, Julia?", agora foi a vez da Fabíola me interrogar. "Não sei nem quem é você, quanto mais do que eles estão falando", respondi, sem paciência. Meu Deus, o que era aquilo tudo? "Dra. Fabíola é psicóloga, especializada em Psicologia da Família", meu pai respondeu, e continuou: "Sua mãe e eu estamos fazendo terapia há cerca de um ano e meio para tentarmos entender...", sua voz embargou. Era a segunda vez na vida que eu o via assim. "De uns tempos para cá, seu pai e eu começamos a perceber que você estava diferente. Ao mesmo tempo em que você ficou mais "mulher", se cuidava mais, também percebemos que você estava sempre sozinha, sabe? Começou a deixar suas amigas de lado – nós sabemos que deixou, porque encontramos várias delas nas nossas saídas para jantar, enquanto você dizia estar com elas. Também notamos que o Lipe, apesar da vida social intensa de festas, faculdade e outras coisas, nunca estava com uma garota. E vocês estavam sempre juntos", minha mãe foi quase didática em sua explicação, o que só aumentou meu desespero. Será que...? "E o que o fato de eu me arrumar e sair ou não com as minhas amigas tem a ver com o Lipe ter ou não namorada, mãe? Que papo é esse?", retruquei, indignada. "Felipe?", perguntei, mas ele não abriu a boca, incapaz de explicar que circo era aquele. "Como isso começou, filha?", o tom de voz baixo, quase inaudível, de meu pai me cortou o coração. Naquele momento, me senti a pior das criaturas, traidora da confiança do meu pai. "Pai...". "Só me fala, filha. Eu juro que não estou bravo, não estou com raiva... Eu te amo, filha. Só quero entender o que está acontecendo, porque eu também estou confuso, meu anjo." E eu tentei falar, mas a voz não saiu. Eu tinha o maior amor do mundo pelo Felipe e pelos meus pais, mas tinha um medo igualmente grande de estragar tudo o que nós tínhamos. Ao mesmo tempo em que eu seria capaz de dar a vida pelo Lipe, eu preferia perdê-lo a magoar meus pais. E a sala ficou em silêncio absoluto por um bom tempo. Alguns minutos, uma hora, não sei ao certo. Por fim, Felipe resolveu falar. "Me perdoa, pai. Me perdoa, Paula. Você tem sido uma mãe para mim desde que... Eu não poderia ter feito o que fiz. Eu sei que não poderia. Mas, merda, eu não fiz nada por mal. Não agi na maldade, não tive a intenção de prejudicar ninguém. Eu juro, só que... porra, eu me apaixonei. É uma merda sentir isso justamente pela minha irmã, mas não tenho como controlar, não tenho como evitar. Eu tentei, juro que tentei, mas não é simples assim." Felipe estava tão vermelho, nervoso ou envergonhado, não sei, que parecia prestes a explodir, o que me deixou preocupada. No entanto, minha cabeça martelava porra, eu me apaixonei sem parar, me deixando atordoada e desesperada para levantar, ignorando a presença de meus pais e da tal psicóloga e beijar o amor da minha vida. Ao ouvir aquelas palavras, meu pai chorou, mas não dava para saber se era um choro de tristeza, por ver o que havia acontecido com seus filhos; ou se era um choro de felicidade, ao ver que criou, mesmo a distância, um bom homem, digno de merecer o amor de sua princesinha. Felipe se levantou, agitado demais para permanecer sentado naquele sofá e foi até a cozinha. Eu apenas o segui com os olhos, ainda incapaz de abrir a boca e dizer o que quer que fosse. Minha mãe, com os olhos úmidos, me olhava em silêncio, incerteza sobre o que diria. "Agora é a sua vez de falar, Julia. Você também se sente assim em relação ao Felipe?", me perguntou Fabíola, que se levantou e sentou ao meu lado no sofá, as mãos acariciando o meu cabelo, como que para me acalmar e me dar segurança. Aquilo foi bom. Precisava me sentir assim. "Desculpe pelo seu braço", eu comentei, tentando ganhar tempo. Ela apenas sorriu e balançou a cabeça, pedindo para eu esquecer aquilo. "Então, como você se sente?", ela tornou a perguntar, e eu notei Felipe parado à porta da cozinha, o olhar repleto de expectativa. "Fala, filha! Você também ama o seu... o Lipe?", meu pai estava impaciente. "Eu amo, pai. Eu amo o Lipe. Eu não queria sentir isso, droga. Ele é meu irmão, ele é seu filho! Mas eu amo. Desde o dia em que eu vi no aeroporto. Eu tentei fazer de conta que não era nada, que aquilo era coisa da minha cabeça, que era empolgação por ter um irmão mais velho, mas não era isso. Eu não o via, como ainda não o vejo, como meu irmão. A gente não tem ligação, não temos parentesco, mas eu sei que, mesmo assim, é errado. Me perdoa, pai. Me perdoa. Não me odeie por isso, por favor!" Ao ouvir meu pedido de perdão, meu pai se levantou correndo da poltrona, no canto da sala, e se ajoelhou na minha frente, abraçando meu corpo e apoiando sua cabeça sobre as minhas pernas, o choro quase convulsivo, como jamais pensei que veria verter dos olhos de meu pai. Nunca, em toda a vida, eu me senti tão impotente como naquela hora. Era por minha causa que o homem mais importante da minha vida estava daquele jeito, um misto de desespero e agonia. Que lixo de filha eu era? Por que eu não neguei aquele sentimento? Droga, a quem eu queria enganar? Eu não teria como negar tudo aquilo! "Não vou mentir e dizer que está tudo bem, que eu acho normal e que não ligo. Claro que eu ligo. Eu amo vocês dois. Vocês são meus amores, meus eternos bebês. Mas não tenho como impedir que vocês sintam isso. Um pelo outro. Mesmo que isso me deixe confuso, me deixe meio sem chão agora, eu amo vocês, porra. O pai nunca vai deixar de te amar, meu anjo. Nunca! Lipe, vem aqui, filho". Meu pai se levantou e me pegou pela mão, e eu levantei também. Ele me abraçou e me deu um monte de beijos no rosto e no alto da cabeça, o que me fez chorar copiosamente, de alívio e de remorso. Abraçada a ele, observei minha mãe sendo amparada pela psicóloga, que dizia baixinho para ela que, apesar dos meios estranhos que a vida segue, aquilo tudo não era e jamais deveria ser visto como um erro. "É apenas o amor dando um jeito de florescer, Paula." Ela sorriu e se levantou, puxando o enteado para um abraço e dizendo, com uma naturalidade que surpreendeu ao Felipe e a mim, que ela entregava o amor da vida dela nas mãos dele, porque confiava naquele amor que ele garantia sentir por mim. Ele a abraçou forte e a beijou no rosto, disse que a amava como se ela fosse sua mãe e que me faria a pessoa mais feliz do mundo. Minha mãe sorriu, em meio as lágrimas, e disse que tinha certeza disso. "Você é filho do homem que eu mais amo nessa vida e que me faz feliz diariamente. Não tem como ser diferente." Meu pai se afastou um pouco de mim e o chamou para perto, abraçando Felipe e repetindo quase as mesmas palavras que disse a mim minutos antes. "O pai nunca vai deixar de te amar, filho. Nunca. Não vou negar que acho estranho tudo isso, e quando os vir juntos, como casal e não como irmãos, será ainda mais estranho, mas vou trabalhar isso. Paula e Fabíola vão me ajudar a superar esse choque e eu vou melhorar. Prometo. Por hora, só quero que vocês sejam feliz. Que vocês se façam felizes. Combinado?" Ao ouvir aquelas palavras, me juntei ao abraço dos dois e os beijei na bochecha, feliz, embora ainda incrédula com toda aquela situação. Minha mãe se juntou a nós e, sabe-se lá de onde, Gabriela também surgiu, completando a cena. Não reparamos quando Fabíola nos deixou, mas, dias depois, fiz questão de me encontrar com ela em seu consultório, para agradecer por ter ajudado ao Felipe e a mim com toda aquela situação. Ouvir a psicóloga dizer que havia passado por uma situação semelhante, embora sem o mesmo desfecho, me ajudou a serenar o coração, pois percebi que não fui a única pessoa a passar por isso. O seu desfecho, porém, ela não quis comentar. Era uma dor que cabia a ela guardar pelo resto da vida, usando-a como missão para ajudar a quem precisasse.

Laços de famíliaWhere stories live. Discover now