Felipe passou quase dois meses sem falar comigo, mas, para mim, aquilo pareceu ser uma década. Falava apenas o necessário, como "me passa a manteiga", "deixaram um recado para você" ou coisas do tipo, mas somente quando meus pais ou a Gabriela estavam por perto. Do contrário, ele me ignorava, o que me rendia algumas horas de choro e muito mais horas de olheiras e cara amarrotada, que eu nunca conseguia explicar quando me perguntavam o que tinha acontecido.

Aí, finalmente, ele resolveu falar comigo... e veio me pedir ajuda com uma roupa, porque não queria vestir nada que não combinasse nem que o deixasse com cara de riquinho. Perguntei o motivo daquela preocupação com a roupa e ele disse "Um cara não pode quer se vestir bem para sair com a garota dele?", e piscou de leve para mim. Meu coração acelerou de um jeito que eu não sei explicar até hoje. Aquilo significava que a gente estava voltando a se entender? Ai! Terminei de ajudar o Felipe a se arrumar, ele passou um pouco do perfume que sabia que eu adorava e... me agradeceu e deu tchau. "Vou encontrar com a Thabata, irmã da Thalita. Avisa pro papai que eu não tenho hora para voltar, ok?". Não consegui responder nada. As lágrimas pulavam dos meus olhos sem o menos constrangimento, pouco se importando com o fato de que ele ainda estava na minha frente. Então seria assim, de agora em diante. Ele estava seguindo a vida dele, enquanto eu teria que aceitar o fato de que ele não me queria mais por eu não ter coragem de falar sobre um assunto tão delicado quanto a situação em que nós dois vivemos por três anos. Sem dizer nada, enxuguei as lágrimas que não paravam de cair com as costas das mãos, as sequei na lateral do meu vestido listrado e subi as escadas, dois degraus por vez, sem olhar para trás. Acho que ouvi Felipe chamar meu nome, mas não tenho certeza, pois bati a porta do quarto com tanta força, que fiquei até meio atordoada com o zunido.

Laços de famíliaWhere stories live. Discover now