Capítulo Dez: Lucilla

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"Não me apaixonei por ela à primeira vista. Não foi como as lendas contam. Bardos são tagarelas que não sabem do que falam. Ela era insípida e pequena. Demasiado pequena. Demasiado bonita. Demasiado estranha. Mais do que tudo o resto, foi a estranheza nela que me cativou. A cumplicidade entre Luce e Dooda, a forma como eles se compreendiam e em como estavam quase sempre de acordo, despertou algo insano dentro de mim. Tivemos dois momentos terríveis, em que o coração subiu-me à garganta. Duas desavenças. Isso fermentou dentro de mim como cerveja velha. Certa noite, Dooda, Agravelli e Bortoli saíram para negociar com contrabandistas. Esgueirei-me até à tenda dela e fitei-a, assombrado com aquilo que via. Dos tornozelos às ancas, do ventre liso aos seios de rapariga. Nua. Ela também me viu. Podia ter gritado, mas não o fez. Perdemos o nosso olhar um no outro, e depois os nossos corpos foram embalados pelo calor da noite. Foi assim que começou. A partir dessa noite, ela deixou de pertencer a Dooda. A partir dessa noite, tudo mudou entre os Doze Vermelhos."

Língua de Ferro fitou Marovarola com curiosidade enquanto ele comia a quinta sobremesa. A refeição da noite estava espalhada pela mesa e pelo chão, alguns pratos estavam partidos, as taças manchadas de vermelho escuro, tudo sujo de molho e resíduos. Desde o primeiro dia em Ccantia, Marovarola mostrava que não tinha a intenção de ser discreto. Em tudo o que fazia, abria um precedente. Eles desciam para os restaurantes mais caros do bairro Riis todas as noites, esbanjavam, comiam e diziam o que queriam, para que todos os espiões que ali paravam soubessem quem eles eram. Marovarola achava aquilo tudo muito divertido, embora Língua de Ferro não partilhasse do seu entusiasmo.

Naquele dia, Dagias Marovarola levou consigo os doces que restavam em cima da mesa e enrolou-os numa trouxa, deixando duas pratas a tilintar sobre o tampo de cerejeira do balcão, antes de abandonar o restaurante. Quando regressaram ao quarto cheio de pulgas que haviam reservado, deixou a trouxa num canto e ignorou a comida como se todo o seu apetite não fosse mais que uma mera encenação. E era.

― Os nossos inimigos comuns vão achar o nosso empenho em engordar... curioso ― lembrou Língua de Ferro.

Marovarola ergueu uma sobrancelha e acenou distraidamente, enquanto removia a jaqueta.

― Seguramente, Val! É a curiosidade deles que os irá denunciar, mais cedo ou mais tarde.

― Não gostaria de ser surpreendido ― adiantou Língua de Ferro.

― Uma adaga a meio da noite não seria surpreendente.

― Pois não. ― Língua de Ferro pensou naquilo, enquanto arrancava uma bota do pé, sentado na cama de cobertores velhos e manchados. ― Pergunto-me até que ponto a tua exuberância não será... perigosa.

Marovarola estava nu da cintura para cima. A sua pele era castanha e parecia macia, coberta de manchas brancas de antigas cicatrizes. Desdobrava o saco-cama onde iria dormir, quando se endireitou com um sorriso no rosto. Uma cascata de caracóis escuros derramou-se pelos ombros pontudos.

― Estamos à espera de ser abordados, esqueceste-te? É para isso que aqui estamos. Comer, foder, e esperar por mais. Tripas à mostra, coisas do género. Alegra-te, homem... Quase me tinha esquecido do teu humor de cão.

Língua de Ferro permaneceu calado por um bocado.

― Só estou ansioso ― revelou. ― Só isso. Não quero voltar a ser apanhado desprevenido.

Marovarola soltou uma risadinha enquanto se metia dentro do saco-cama. ― Valentina, Valentina. Somos demasiado bons para sermos apanhados desprevenidos.

― O excesso de confiança é um erro.

― E se nos surpreenderem? Eles não nos vão querer mortos. Sabes disso tão bem como eu.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!