A luta de classes

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RonielFelipe

A luta de classes


Roniel Felipe

Bem antes do famoso Clube da Luta, meninos periféricos de classes diferentes e, ao mesmo tempo, iguais, mostravam com quantos paus se faz uma canoa.



Além do físico pouco avantajado, foi a aposentadoria precoce no mundo das brigas escolares que me permitiu presenciar com bons olhos e todos os dentes a luta das classes do Antônio Fernandes Gonçalves, o AFG (o famigerado colégio do aluno fedendo à gambá). Foi no Fernandão, onde se dizia que o estudante entrava burro e saía ladrão, que presenciei embates homéricos, brigas repletas de dramaticidades protagonizadas por moleques pobres desprovidos de fé no futuro, mancebos impulsionados pelos hormônios e pela regra do olho por olho, dente por dente.

Na realidade, observar as brigas era o que restava a um adolescente apelidado de magrela, bunda-seca, pau-de-virar-tripa e graveto falante. Quando fitavam minha caixa torácica, das raras vezes que ousava ir para a rua sem camiseta, era possível enxergar o movimento de uma das minhas artérias pulsando, bombeando vida ao meu coraçãozinho juvenil e pacato. "Cê não pode brigar porque se levar um soco no peito, cê morre", atestava Marcelo Tartaruga, colega dos tempos de Fernandão. O sujeito lia com extrema dificuldade e sofria para fazer uma continha de dividir, e ainda assim falava como se tivesse um diploma de cardiologista exposto na parede do seu quarto.

E, por mais que eu fosse um mero observador dos embates, eu também era pupilo da quinta série de uma escola pública, um pandemônio educacional. Nos finais de semana dos dias escaldantes, a molecada da vizinhança se refrescava na caixa d'água do colégio. Apedrejamentos, pichações e outros atos de vandalismo eram mais repetitivos que o cardápio da escassa merenda escolar oferecida. Se mostrassem uma foto de Karl Marx para os estudantes do AFG, certamente diriam que se tratava do Papai Noel ou do irmão gêmeo do seu Roberto, um servente da escola que há muito parecia ter brigado com o barbeiro devido a sua vistosa barba e seus cabelos longos (carinhosamente, pelas costas largas, o chamávamos de Matusa, abreviação de Matusalém). O sopro da juventude nos fazia impetuosos e ignorantes à teoria. Preferíamos a prática. Por outro lado, a aspereza da vida nos calejava de formas diferentes. Nem todos éramos soldadinhos de chumbo do patriarcado, homenzinhos prontos para revidar imediatamente qualquer desfeita, por menor e insensata que elas fossem. Havia aqueles que adotavam a teoria da mais valia nas primeiras conquistas amorosas. "Mais valia ter todos os dentes e ter chances com a Elisângela da rua 9 no bailinho da vassoura, do que ser um campeão banguela". Assim, além da horda dos gladiadores novatos, o staff da escola também contava com o time daqueles que se perfumavam para ir à escola, a patota dos conquistadores baratos e precoces.

Embora longe de estar lapidada, precoce também era a visão empreendedora de Quebinho, um baixinho moreno, dono de olhos grandes e vidrados. De angelical, o aluno da quarta B só tinha os cabelos encaracolados. A boca, demoníaca, saraivava com precisão as palavras que incendiavam os ânimos, assim promovendo a luta entre as classes. Ardiloso como um pícaro, Quebinho, que tinha na sua carteirinha do AFG registrado o nome Cléber Antônio da Silva, maquinou dezenas de brigas na quadra da escola e, principalmente, na hora da saída – também conhecida como a hora da verdade.

Sua estratégia era muito simples: propagar boatos e falácias que serviam como estopim para as pelejas entre os machinhos que mal sabiam limpar a bunda, mas já se sentiam extremamente briosos pelos primeiros pelos púbicos.

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