NEW: Introducing Tap. Addictive chat stories for your 📲 Now in 10 languages
DOWNLOAD NOW!

Primeiro

61 7 0

Acordo em mais uma madrugada para dedicar a manhã, que o sol nascente traria, aos estudos que estou me empenhando. Onde coloquei na cabeça que estudar em uma universidade tão longe de casa seria bom para mim? Hoje é mais um daqueles dias que a ansiedade vem rodeando, me cercando e esbarrando em cada coisa que passo a fazer, sem nenhum motivo óbvio. Penso demais e descanso relativamente menos. Pregar os olhos é uma tarefa árdua e embora fosse a única coisa que faço durante as duas horas seguintes de transporte até a faculdade, permaneço acordado.

Encontro um lugar vago no trem das 05h26 rumo a São Paulo, sento-me e a hiperatividade toma forma. Meus dedos tamborilam no assento, na janela riscada a chave por vândalos, meus olhos percorrem cada rosto procurando conhecidos. Não deveria estar atento às pessoas, há quem se sinta desafiado e talvez possa sofrer ameaças ao desembarcar, como já aconteceu. Hoje o perigo esta em quem menos esperamos e por isso evito encontrar olhares desagradáveis, barrigas salientes ou reparar em coisas que naquela hora não seria interessante.

Por mais que esteja evitando encarar meu celular, abro o zíper da mochila e ali o encontro. Deslizo o polegar sobre a tela para desbloqueá-lo e faço algo que venho evitando há dias: ler as mensagens que ela insiste em deixar.

Ela se chama Pâmela, foi minha primeira e ultima namorada, sempre foi a garota mais carismática, atraente e sexy que já conheci, mas não conseguimos nos relacionar mais depois daquele dia em que tudo aconteceu.

Eram trinta e sete novas mensagens e doze ligações somente naquela manhã. Não percebi tocando, pois mantenho sempre o aparelho no modo vibra. Decido ler o que ela quer.

"Preciso te dizer algumas coisas"

Essa era a mensagem que mais se repetia. Quais seriam as coisas que tem pra me falar? Detesto ficar curioso dessa forma e ela me conhecendo tão bem se aproveita disso. Preciso aliviar a cabeça, isolar esse pensamento e esquecê-la pelo menos esta manhã. Só se passaram cerca de trinta minutos dentro do trem, a viagem era longa e daquela forma eu acabaria desembarcando na próxima estação e voltando para casa dela. Não poderia fazer isso, não novamente.

Pego um livro de dentro da bolsa, um livro grosso do jeito que prefiro. Muitas páginas, muitos dias, muitas letras para maquiar a falta de sono e os problemas que me afrontam. Já li mais que a metade, me encontro numa parte talvez importante para a narrativa. É difícil me concentrar com aquelas senhoras tagarelas que retornam ao mesmo assunto toda manhã, mas insisto. Passam duas, três, cinco estações e continuo a ler. Lembro que foi um presente de uma amiga, mas não me lembrava de qual. Abro a contracapa e ali está escrito uma dedicatória.

"Sei que gosta de livros assim, sei que leria apenas pela quantidade de paginas ou por passar o tempo mesmo. Aproveite cada capitulo. Com carinho, Pâmela"

Ela realmente me conhece. Digito uma mensagem, aproveito o espaço vazio que a moça esbelta ao meu lado deixou ao desembarcar e antes que seu lugar fosse ocupado novamente eu já estava de pé à porta do vagão. Olho novamente a tela do celular antes de bloquear o aparelho e lá estava escrito "Estou chegando".

II

Aperto o botão de número quinze no interfone do condomínio onde ela mora, vejo o porteiro me encarando por atrapalhar seu sossego antes da vida de entra-e-sai de moradores pela manhã. Pode parecer cedo para as demais pessoas, mas não há hora certa quando se trata dela, ela nunca dorme, ou não como deveria.

- Quem é? - disse uma voz frágil, parecendo embargada em álcool. Era ela, pelo tom que se expressou não estava bem.

Pensei antes de responder. Não gostaria de estar ali àquela hora da manhã, ter perdido mais um dia de aula para ir até aquela casa, a casa onde tudo aconteceu.

O perdão de PamRead this story for FREE!