Capítulo 01: Depois da Guerra

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Duat

O deus-sol Rá com seu exército de reforço chegou ao campo de batalha tarde demais. Viu todos aqueles corpos, de humanos e deuses, caídos na areia. A maioria feita de mortos. Seu exército precisou transformar-se de guerreiros altamente treinados para coveiros e enfermeiros. Eles começaram a cavar uma imensa vala, para enterrá-los; não valia a pena levar os mortos de volta à cidade, ao Egito dentro do Duat.

Rá supervisionou pessoalmente a montagem rápida de uma cabana de pano para colocarem os feridos, de modo a tratar os casos mais urgentes. Em algumas horas, chegou uma equipe de feiticeiros e curandeiros a fim de tratar dos feridos. O deus notou que todos os deuses, incluindo Hórus, o rei, foram mortos sem piedade por aquele ser, Kifo. Rá se perguntou como era possível que um exército tão grande e cheio de deuses pudesse ser derrotado por apenas um ser. Pelo menos, em relação aos deuses, eles renasceriam eventualmente; eram imortais e, como tal – e como o próprio Rá que renascia a cada mil anos ou algo assim – não poderiam ser mortos; não permanentemente.

A noite estava se aproximando; Rá o sabia não por que havia um sol no horizonte que estava baixando, pois ali, não havia tal astro. Ele o sabia por que era o deus-sol, portanto, o deus do dia. Sabia quando seu período de reinado estava acabando.

Foi quando as batidas no portão da prisão de Apófis começaram. Rá tinha notado que a porta estava fechada, e por tanto deduzira que a serpente ainda estava presa; contudo, se Bast estava fazendo seu trabalho corretamente, eles deveriam estar bem longe daqueles portões. Algo estava errado e Rá tinha de descobrir sem abrir o portão. O deus percebeu que o exército estava ficando agitado por causa daquele barulho, por isso, voou a poucos metros do chão para que todos pudessem vê-lo:

– Não se preocupem, homens. Eu irei descobrir o que está acontecendo. Mas nunca, em nenhuma circunstância, abram esse portão sem minha autorização, entendido? – Ele ouviu um uníssono sim.

Rá pousou e foi até o portão, onde alguns guardas estavam. Pediu para ficar sozinho. Ele tinha que fazer um ritual complexo; para isso precisava de concentração. Consequentemente, teria de ficar sozinho; os guardas concordaram e garantiriam que ninguém se aproximasse.

Ele sentou na areia; juntou as palmas das mãos e começou a recitar palavras egípcias inaudíveis para qualquer um a não ser a si mesmo. Minutos depois, um hieróglifo surgiu sobre sua cabeça, flutuando no ar. Então, outro apareceu; e outro e mais outro. Nos dez minutos que ficou ali, mais de cem hieróglifos surgiram emitindo um brilho dourado imenso. Apesar da curiosidade do exército, ninguém ousou chamar ou atrapalhar o deus-sol, que atualmente era o rei regente – já que Hórus, o rei legítimo, estava temporariamente incapacitado de reinar.

Rá separou as mãos devagar, fazendo com que uma pequena bola brilhante surgisse entre as duas. Ela foi crescendo aos poucos, até ficar mais ou menos do tamanho de uma bola de baseball. A bola, aos poucos, foi ficando mais parecida com o sol que há na Terra. O pequeno sol flutuou das mãos de Rá e subiu os quase trezentos metros que separava o chão do topo do portão; passou por cima dele e desceu do outro lado.

Pela sua mente, o deus-sol podia ver o que estava acontecendo do outro lado. Bast estava ali, batendo desesperadamente na porta, porém parou ao ver o pequeno sol. Rá não precisou de muitas palavras da deusa para entender o que ela estava querendo dizer:

– Apófis fugiu. – Ela disse.

O deus-sol apagou seu pequeno feitiço do outro lado do portão, no qual tocou com ambas as mãos em seguida. Milhares de hieróglifos que estavam encrustados no portão brilharam em dourado, o que desesperou todo o exército que estava ali, menos os feridos, que sabiam que o deus do caos havia escapado; e estes diziam aos seus cuidadores o que estava acontecendo.

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