Metamorfose voadante

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Adormeceu por tempo indeterminado.

Antes de abrir os olhos, seus instintos acordaram. Sentiu o cheiro de ar puro. De árvores e poucas nuvens no céu.

Sentiu tontura ao tentar levantar e então lembrou de abrir os olhos. O clarão fez Nívea colocar a mão esquerda no rosto para tentar enxergar algo. Quando enxergou, sentou novamente. Estava na frente do Convento de Mafra, construído em 1717. Será que ela estava nesse século?

Nívea não entendeu bulhufas. "Cadê o tal 'instrutor' e a idosa?", pensou.

Olhou para sua roupas e fazia jus a época. Um vestido azul-turquesa com tecido fino nas camadas pomposas da saia. Sentou e tentou se lembrar de como poderia ter parado ali. Observou o lugar a sua frente. Árvores, a construção e algumas pedras em volta eram as únicas pinceladas na tela. Rústico.

Respirou fundo e tentou acordar do sonho beliscando o próprio braço. Não aconteceu nada. A medida que Nívea ficava preocupada percebia que mais nuvens rechonchudas a cercavam no céu, como em filme.

"Parece que vai chover", falou em voz baixa. Para si mesma.

Foi quando alguém chegou perto e a cobriu do sol.

Ela tirou a mão do rosto e sentiu um alívio inexplicável quando viu os olhos cor âmbar do jovem. Pensou em abraçá-lo tamanha felicidade. Mas não o fez. Contrariando o pensamento, ela se afastou. Deu dois passos para trás e perguntou: o que é isso? Onde eu estou? Quero ouvir só as respostas das perguntas e nem venha com...

"Não sei", interrompeu inocentemente.

Nívea riu. Gargalhadas altas.

"Como assim 'não sei'?", disse imitando o jovem.

"Ué, eu não sei. E não encontrei Cho em duas horas que estamos aqui", anunciou.

"Cho é o nome dela? Gostei", falou.

"Sim. Mas não precisa gostar. Ela vive muito bem sem suas preferências", disse ríspido.

"Nossa, pra quê ser grosso? só comentei", esclareceu.

Ele sentou em uma rocha que havia perto de uma das grandes árvores que ficavam em volta da construção, do Convento. Colocou a mão no rosto, como quem tentava entender melhor a situação. Nívea se sentia melhor do que no Antiquário. Sentia liberdade de estar num lugar aberto, mas tinha tantas perguntas e sabia que o momento de questionar não era aquele.

"Ela era sua amiga? A gente encontra rápido se procurar junto. O que acha?", perguntou esperançosa.

Ele ergueu a cabeça e olhou para as nuvens se dissipando de forma magistral.

"Você é muito bipolar", disse ele.

"Não... só quero ajudar mesmo", tentou.

Ele, ainda com a cabeça erguida, observou uma borboleta e instantaneamente sorriu. Como se esperasse por aquilo uma eternidade.

A borboleta pousou no braço dele e Nívea pôde enxergar cada detalhe fascinante de perto. Uma junção de azul esverdeado com lilás cintilante faziam dessa a borboleta a mais única que Nívea vira na vida. Uma fonte confiável porque além de nuvens ela também observava borboletas.

Ele reparou na admiração e esnobou: não a reconhece? Tá bom, eu apresento: Cho, essa é a Nívea. Nívea, essa é a Cho. A primeira frase ele disse em um idioma que não sou capaz de identificar para transcrever a origem.

Ela olhou para ele como se fosse a besteira mais ridícula que ouvira. O jovem fechou o rosto e soprou com suavidade a borboleta que ainda pousava no braço dele. Ele soprou mais forte e nada aconteceu. Foi quando pessoas com roupas da mesma época que ela tomaram conta do espaço.

Uma mulher com pilhas de roupas nas mãos parou perto de uma outra pedra e, como se fosse mágica, apareceu um poço do lado dela e ela começou a lavar as roupas. Um cachorro sem raça chegou com ela e a observava com alegria. Apareceu também um homem em um canto e uma criança no outro. Como se alguém estivesse acrescentando cada um, em tempo real, no devido lugar.

Então ele soprou mais forte com uma força equivalente a de um animal, sem parecer, no entanto, que fazia algum tipo de esforço. A borboleta, então, saiu do braço dele e assumiu a forma humana. Mais do que só isso, assumiu a forma da idosa japonesa do Antiquário.

"Cho é uma borboleta", sorriu Nívea.

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