Capítulo 28 - Lagoa Prateada

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Na gaveta do meu pai tinha uma calça, duas cuecas,  duas camisas e um suspensório velho

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Na gaveta do meu pai tinha uma calça, duas cuecas,  duas camisas e um suspensório velho. Um colete e uma adaga de cabo vermelho. Também tinha um pequeno caderno de capa verde e um relógio de bolso. Gostei do relógio. Um pouco desgastado mas os detalhes dele contavam muitas histórias.

As roupas ficaram ligeiramente grandes para o meu tamanho mas eram bastante confortáveis. O suspensório foi muito útil. Vesti o colete e coloquei o relógio no bolso e fiz uma pose de adulto. Olhei o relógio com a expressão de quem está muito atrasado para algo muito importante. Talvez eu precisasse da adaga para este evento tão urgente! Somente com ela eu conseguiria. 

Tirei-a da bainha e li gravado na lâmina os dizeres "A cidade Lagoa Prateada lhe é grata". Era isso. Guardei a adaga na cintura. Eu precisava pegar meu cavalo e correr para salvar a moça que foi raptada em Lagoa Prateada. Mas os sequestradores queriam dinheiro, muito dinheiro. Eu tinha um plano. Iria mostrar bastante dinheiro e quando viessem pegá-lo eu os derrotaria com a lendária Lâmina da Gratidão. Peguei minha bolsa de couro, corri até o quarto de visitas e afundei meu braço no buraco do colchão. Tirei todo o dinheiro e coloquei dentro da bolsa. Muitas moedas e muitos papéis. Algumas cartas valiosas. Eles seriam ofuscados pela ganância e eu os derrotaria facilmente. Mas eu precisava do meu isqueiro então também coloquei na bolsa.

Subi em meu cavalo e fomos rapidamente em direção de Lagoa Prateada. Mas não era tão fácil chegar lá. A não, não era. A ponte que levava até a cidade era guardada pelo terrível crocodilo de duas cabeças chamado Baroch, e ele estava furioso. Ele me olhou e vociferou derramando baba pela sua boca nojenta. Deu muitas voltas em si mesmo. Não ia me deixar passar facilmente. Eu precisava de um plano.  Talvez eu pudesse enganá-lo...

— Ei Rufus, olha o que esse idiota está fazendo com este cabo de vassoura e este cachorro! — gritou um dos três garotos que se aproximavam vindo da direção da cachoeira.

— Ele tem cara de retardado.

— Qual o seu nome, retardado? 

Eu não sabia. Não sabia o que fazer e nem responder.
Barão rosnou para os intrusos mas um deles pegou do chão um grande galho e o ameaçou, fazendo-o se esconder em um arbusto de onde continuou  a latir.

— Vamos! Fale logo seu retardado. Cadê seus pais?

— Gostou de andar pelado por aí, não é? — debochou o mais alto deles.

Senti medo e vontade de sumir dali. Queria que fossem embora.

— Ele não sabe falar. Não é mesmo Zé Bosta? Posso te chamar de Zé Bosta, não é ? — disse o mais forte deles enquanto se aproximava mais ainda de mim.

— Se ele ficou quieto é porque pode!

— Seus pais não estão aqui, não é ? Acho que eu vou pegar sua casa para mim agora, que tal ? — Disse o garoto a um palmo de distância.

Eu não disse nada. Só fechei os olhos e abaixei a cabeça.

E foi aí que eu senti o golpe do galho batendo contra minhas costas.

De um lado caiu o cabo de vassoura, e para frente caiu o meu corpo, se arrastando na terra vermelha e seca.

— Vamos Zé Bosta, você não tem permissão para descansar aí no chão.

Chutes. Protegi minha minha cabeça com os braços.

O mais forte deles, a quem chamavam de Rufus me pegou pelo colarinho e me ergueu. Cuspiu na minha cara e disse que a partir daquele momento eu tinha que obedecê-lo. Me empurrou em direção do poço seco e disse para eu me jogar dentro do buraco. Por que alguém pensaria uma coisas destas? 

Saí correndo. Mas os outos dois garotos me cercaram e me puxaram pela alça da bolsa que estava comigo. Outro chute no estômago. Eu não podia fazer nada. Um me empurrava na direção do outro, como se aquele ritual macabro fosse algum tipo de brincadeira.  Aquilo era um inferno. O que eu havia feito de mal para aquelas pessoas? 

— Acho que ele precisa de um pouco de água. Tragam água para ele!

Foram até o poço e encheram o balde para mergulharem minha cabeça nele, várias vezes.

Barão chegou perto, furioso mas acertaram uma grande pedra em sua cabeça.

— Quem sabe a mãe dele fugiu com um jogador e o pai se matou de desgosto por ter um filho retardado?

Um soco no meu olho esquerdo. De olhos fechados eu empurrei um deles. Zombaria, cusparada e pontapés.

Acho que derrotar os bandidos não era algo tão fácil assim, afinal. Todas as imagens foram banhadas em todas em preto, tatuando tudo ao meu redor. O ar estava pesado. Eu senti a terra. Ela se movia sob meus pés.  Um mundo em dores. O que significa quando o mundo é controlado por outros? Um mundo que tem em seus ombros demônios e que nunca se libertará. E em toda esta loucura, os pensamentos ficam confusos e ingênuos, com muito para se falar e nada a dizer. 

Este mundo de sombras agora me devorava. "Eu estou cercado e posso ouvir suas gargalhadas. Deveria eu também gargalhar junto com eles?". Um dos demônios me ergueu novamente pelo colarinho.  Meu sangue tinha um sabor quente e entorpecente. Durante o segundo em que senti este sabor, desembainhei o punhal e o afundei no olho esquerdo do rosto a minha frente. O sangue pintou a paisagem negra. Uma arte sombria e melancólica. Não acho que dono do rosto percebeu a lâmina dentro de seu crânio pois ela não ficou lá dentro mais que um piscar de olhos. Muitos gritos assustados, mãos ao rosto, um garoto ajoelhado. Tudo era suave. A terra continuava e se mover, mas eu também me movia junto. Aos gritos, nos poucos segundos que se seguiram,  eles disseram algo mas não me falaram nada. Levei a adaga até a barriga do garoto mais alto. Ele me chutou e eu ignorei, furando-o algumas vezes. Virei-me para o garoto com o galho de árvore. Ele veio correndo em minha direção e me golpeou nas costas enquanto eu mergulhava sobre ele. Mais vermelho sobre os trastejados negros. Eu não senti prazer, nem mesmo pensei. Somente fiz. Quando se acorda e as pálpebras se abrem, pensamos a respeito de abri-las ou temos algum sentimento ao fazer isto? Não comigo. Me levantei enquanto olhava uma pintura surreal. Três corpos no chão.  Embainhei a adaga, peguei a bolsa de couro que havia caído, chamei meu cachorro que sangrava e andei.

Andei sem parar, com a terra movendo-se sob meus pés, a imagem banhada em preto e tatuada em vermelho.

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Jeff mais leve que o arOnde as histórias ganham vida. Descobre agora