Prólogo

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Não havia um ruído sequer, o silêncio tomava Sheol; não o silêncio costumeiro, mas diferente, como um presságio, um anúncio de algo incrivelmente ruim. Heylel andava no corredor estreito e mal iluminado de sua morada. Seus olhos, que levavam a vantagem de centenas de anos vividos, vasculhavam a escuridão que se formava ainda mais densa nos cantos escondidos.

– Acredito já ter sido mais cuidadoso com sua chegada, Belial – Heylel disse, soltando uma risada baixa e abafada enquanto continuava seu trajeto até uma ampla sala.

A decoração com móveis antigos remetia à época medieval e dava ao ambiente um aspecto quase teatral. Sentou-se em uma pequena poltrona de tecido grosso e vermelho, a moldura de metal pesado destacava a cor.

– Já que teve o trabalho de sair dos confins que chama de lar, ao menos apareça e sente-se. Quem sabe ainda exista algum tipo de educação em você e possa lhe oferecer algo para beber?

Uma nuvem negra ajuntou-se sobre o sofá à sua frente, ganhando a forma de um corpo de tamanho desproporcional para um humano. Era um ser com mais de três metros, exibindo pernas cujos pés formavam-se de fumaça negra e braços curtos que projetavam mãos com sete dedos. A criatura sorriu, sua boca revelando dentes pontiagudos.

– Ora, ora, ora, Heylel! Não acredito que tenha algo que realmente eu queira beber aqui. Há tempos você não é mais o que deveria ser, não é mesmo? Agradeço, mas não foi para desfrutar de sua bebida ou companhia que vim.

­– Ainda estou ouvindo.

A coisa à sua frente olhou-o com atenção, como se estudasse o que deveria dizer naquele momento.

– Sempre direto. Sabemos que a hora é chegada, Heylel: ou está com os seus, ou está contra nós. Não podemos mais, aliás, não queremos continuar aqui. Merecemos mais!!! – A última frase soou com uma ganância elevada. Heylel o observava, analisava as palavras ouvidas com toda a seriedade que o assunto exigia, mas sem deixar transparecer.

– Sheol é o lugar em que devemos ficar, Belial, não permito que façam nada além do que já fazem. De uma forma terrível, ainda lhes dou o direito de interferir no livre- arbítrio dos humanos. Acredita mesmo que tomar a terra que o sol aquece não atrairia a atenção dEle?

– Não, claro que não. Somente não entendo por que isso nos impede. Após tantos anos, enfim, cedeu ao medo?

Não poderia permitir um desrespeito daquele! Heylel se levantou e, por mais humano que parecesse, sua figura se elevou de tal forma sobre a criatura que a fez se encolher abaixando o olhar.

– Não ouse usar esse tom comigo novamente. Da mesma forma que permito sua presença entre os meus, dou fim às suas insubordinações em um estalar de dedos.

– Perdoe-me, mestre – respondeu com a voz trêmula, mas contendo uma dose de cinismo. – Apenas notamos sua recente falta de tempo para nós. Muitos reclamam que não mais nos procura ou inspeciona nossas investidas. Está nos largando à própria sorte e muitos dos seus têm sucumbido.

Heylel não se sentou, ainda o olhava sentindo o que viria a seguir e não gostava daquela situação. Não queria impor sua ira sobre seu caído, mas não permitiria que a conversa continuasse naquele rumo.

– Acredito que tenho um exército de anjos caídos e não um bando de incompetentes que precisam de orientação ou aplausos diante dos acertos.

– Essa não é a questão.

– E qual é a questão, então?

– Muitos já pensam em se rebelar, em se juntar contra você e tomar a Terra...

– Pense bem no que está me dizendo! – Heylel interrompeu, mas Belial não se deixou abater e continuou com seu discurso quase como se lhe fornecesse um favor.

– São somente murmúrios que ouço nos lugares mais distantes em Sheol, lugares que não mais marca com sua presença e que, gostando ou não, ganham força para rejeitar sua liderança.

– Hum, interessante, então agora terei uma rebelião dos meus – expressou, muito mais como um pensamento do que como uma acusação. Heylel agora andava pela sala. – Acredito que esqueceram quem sou e quão rápido posso dissipar qualquer plano.

– Bem... se me permite dizer, mestre, sugiro não esquecer que todos sabem sobre Naiara.

Foi o bastante para o frágil temperamento de Heylel. Em uma fração de segundo, sua mão empunhava uma lâmina que parecia conter todos os gritos de lamentos e dor do mundo em seu corte.
Não foi possível conter o golpe veloz que percorreu do alto da cabeça da criatura até a base de sua barriga, partindo-a em dois e transformando-a em nada além de fumaça... O som gutural de sofrimento de Belial ecoou no ar. Ele certamente não morreria com tão pouco, mas o eco de seu padecimento servia a Heylel no momento.

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Tenebris - O fim é apenas o começo.Leia esta história GRATUITAMENTE!