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Capítulo Nove: A Companhia dos Ossos

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"A primeira vez que olhei para ela ficou-me gravada na memória para todo o sempre. Ela era tão selvagem como a brisa agreste do deserto rezoli; ágil e imperial como uma leoa. Tinha os olhos cheios de fúria e uma enorme espada na anca esquerda, ainda maculada pelo sangue dos seus inimigos. Os braços esguios e brilhantes cruzaram-se à sua frente. Os lábios eram vermelhos, entreabertos num arquejo quando fixou o meu olhar. Lucilla. A mulher do homem que mais amei. A mulher que mais amei nesta vida. Atrás dela apareceu Agravelli, um guerreiro terrível, uma mente volúvel."

Sylia Má era o nome da região que se espraiava ao redor da grande cidade de Chrygia, mas tinha um governo autónomo. Há três décadas, os ministros de Cacetel reindivicaram para si porções de terreno quando a Batalha do Olho Negro chegou ao fim e o dissidente Ramur de Terra Árida foi empalado pela lança de Braga, o lendário general do Imperador. Títulos e honrarias foram distribuídos em partes iguais, mas Sylia Má permaneceu nas mãos dos dois filhos de Ramur, Egal e Gepino. Foram encetados acordos e tréguas, e Sylia Má tornou-se a sombra da capital, cenário de guerra entre fações opostas, terreno de jogo de expatriados e rebeldes. Nas suas casas de chá abriam-se passagens secretas para câmaras ainda mais secretas, onde conspiradores urdiam tramas contra o Império. Sylia Má tinha isenção de impostos, como o acordado por Cacetel para impedir um motim às portas da cidade. A burguesia de Chrygia sempre se insurgira contra a passividade de Cacetel, mas o Imperador tinha um interesse secreto em manter Sylia Má com vida, um útero de clandestinidade e insurreição. Eram lá que se realizavam os acordos mais importantes. Era lá que os rebeldes se julgavam seguros. Era lá que ele os tinha sob rédea curta, sob os olhos esquivos dos seus espiões. Era lá que vivia o seu filho, que optara por uma vida desregrada depois de sucessivos conflitos com o pai e os seus tutores. O filho do Imperador chamava-se Agravelli e viria a tornar-se um dos lendários Doze Vermelhos. Foi também naquela zona inóspita, pavimentada de lama e fezes, que nasceu a lenda em que se tornara Landon X.

Língua de Ferro caminhava sob o peso obsceno de uma grossa pele de cabril, cujas costuras internas albergavam um arsenal de trinta facas e dois chicotes de couro. Apalasi estava embainhada às costas, debaixo do casaco. Com um olhar furtivo, olhava para a esquerda e para a direita, com o cabelo azul-turquesa a menear-se pesadamente sobre os ombros. Caminhava como um escravo atrás de um camelo, onde Marovarola se pavoneava, nada discreto, com um casaco de penas lilases. Soltava comentários entredentes e não se coibia a provocar todos os comerciantes e compradores com que se cruzavam nas apertadas vielas de Riis, o bairro mais movimentado de Ccantia, a cidade-sombra. A localidade mais variegada e popular de Sylia Má.

Arranha-céus inclinados pareciam desfazer-se. Pontes de corda pendiam entre os edifícios. Dejetos e entulho polvilhavam as ruas, que se multiplicavam, sombrias e estranguladas, à esquerda e à direita. A pouca comida disponível vinha das lojas de beneficência ou era roubada aos burgueses que frequentavam o bairro, em busca de drogas ou prostitutas. Os habitantes iam desde mulheres da vida, tão magras que se distinguiam as costelas na sua pele como teclas de piano, a ladrões menores, como crianças maltrapilhas escondidas nos buracos mais recônditos, até aos ladrões maiores, reis do crime sentados nas suas secretárias sofisticadas a planear a organização da cidade. A maioria das vezes, estes senhores do crime eram aqueles que governavam os bairros febris de Ccantia.

― Procuro Agravelli ― disse Marovarola quando chegou à casa sob um toldo amarelento, com as suas mãos debaixo dos braços e um olhar arrogante. O homem baixo e escuro e sujo, com um colete entreaberto a desvendar mechas de pelos esbranquiçados, parecia tentar conter algumas lágrimas. Tinha cerca de cinquenta anos, mas parecia mais velho. Marovarola desceu do camelo e ofereceu as rédeas a um rapaz que os seguia com uma cascata de cabelos louros e roupa esquálida. Voltou a dirigir-se ao homem e disse as palavras mágicas: ― Pelas nádegas de Kalila.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!