Estilo #10 - O roubo #2

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Dando sequência à análise do roubo, seguimos falando do roubo do estilo – quando achamos aquele livro tão bem escrito que imediatamente repensamos a nossa forma de escrever.

Se preocupar com o estilo é um passo importante – e bastante ignorado no Brasil – para a qualidade do seu texto. É natural que a partir do momento que você se interesse pelo estilo dos textos, os livros clássicos comecem a brilhar. E que as mãos dos cleptomaníacos comecem a coçar.

E por que não roubar? A maioria dos atingidos passou a vida estudando a linguagem e evoluindo a escrita. É exatamente por isso que é tão útil e tão perigoso.


Por que é ÚTIL?

Grandes artistas, independente da arte, praticaram muito mais do que seu público acredita para se tornarem grandes. Eles fizeram muitos testes e erram muito até acertarem. Um dos casos mais interessantes foi o de Picasso, que para um desavisado nem sabia pintar direito, mas que dominou todas os estilos anteriores até criar um só seu.

E se eles já abriram um caminho tão, bem pavimentado, para que gastar o tempo errando tudo o que eles erraram? Sim, a partir da análise dos melhores você consegue chegar mais longe mais rápido.


Por que é PERIGOSO?

O que funcionou no passado pode não funcionar no presente. Além do mais, o que se espera de um artista do passado, não é a mesma que um contemporâneo. A criação artística é uma forma análise da sociedade que o artista vive. Nesse ponto, o artista se comunica com os seus contemporâneos.

Tenho dois exemplos sobre a limitação do valor do que já deu certo para a sua criação. O primeiro é do próprio Picasso que pintou lindos quadros no estilo Expressionista. Nenhum deles é muito famoso, ainda que sejam tão belos quanto os que ele se inspirou. Ele só saltou aos olhos do público quando começou a pintar no seu próprio estilo.

O segundo exemplo é do nosso principal escritor, Machado de Assis. Há alguns anos, um jornal enviou um texto pouco conhecido dele para as nossas principais editoras. Em todas, ele foi recusado e uma delas disse que o seu estio de escrita estava ultrapassado. Quando lemos clássicos, fazemos muitas concessões por saber que se trata de um clássico. Sem saber que é um clássico, mesmo editores experientes não conseguem ver o valor do texto.


O que fazer, então?

- O primeiro passo é localizar o estilo roubado no seu texto. O segundo é entender e comparar a função dele no seu texto e no texto original. São as decisões conscientes sobre o estilo que podem te fazer usar cada artifício da melhor forma.

- Roube do maior número de fontes possíveis, de épocas e regiões diferentes. Pegue o melhor de cada um – o que é universal – e crie algo melhor. Mas tome cuidado para o seu texto não ficar uma colcha de retalhos. Não se preocupe com a primeira versão. O seu estilo vai se assentando nas próximas.

- Se você rouba demais de uma mesma fonte, não estude só o estilo do autor. Estude o ambiente social, político e familiar que ele viveu. Estude a sua vida e preste especial atenção em eventos de grande impacto como guerras, crises e desastres naturais.

- Tenha em mente que você escreve para ser lido. Então adapte os estilos do passado para os leitores contemporâneos acostumados com conteúdo multimídia.

- Leia ensaios sobre os estilos que você mais gosta. Como sugestão: A Arte da Ficção – David Lodge, Como funciona a ficção – James Wood, A arte da Ficção – John Gardner e A arte da Ficção – Henry James.

- Leia livros que você não vai gostar da escrita. Vá na livraria leia as primeiras páginas até achar um que te desgoste imediatamente pelo estilo. Leia até o final anotando tudo que você faria diferente. (Sim, risque o livro!). Saber o que é errado, ajuda a saber o que é certo.

- Roube também dos vivos. Isso diminui o risco do estilo não ser aderente aos leitores. Procure pelos vencedores dos nossos grandes prêmios literários (Jabuti, Oceanos, São Paulo, BN, Rio e José Saramago).


OBS.: Se você não se preocupa com o estilo da sua escrita, passe a se preocupar. Uma boa história mal escrita sempre será um livro ruim.


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GUIA do Escritor de FicçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora