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Uma forte chuva castigava São Paulo e Isabel, impaciente, batucava com os dedos no volante. No porta moedas em frente ao câmbio reluzia a capinha dourada do iPhone de Rachel. Não era a primeira nem a segunda vez que ela se via em apuros para tentar devolver algum pertence esquecido da amiga.

Ouvia no rádio o locutor se referir a números cada vez mais altos toda vez que noticiava a quantidade de quilômetros de lentidão pela cidade. Cansada de saber que não sairia do lugar tão cedo, mudou o rádio para a função CD. Fazia semanas que a coletânea de músicas do Queen estava ali, mas ela não se incomodava com esse looping eterno em particular.

O percurso do hospital veterinário, no Butantã, até o prédio de Rachel, em Pinheiros, não demoraria mais de vinte minutos para ser concluído num dia normal. Debaixo de todo aquele aguaceiro, demorou quase uma hora. Isabel sofreu um pouco para encontrar uma vaga na rua e, quando finalmente terminou a baliza, faltava bem pouco para as oito horas da noite. Um péssimo dia para ter estreado os sapatos oxford novos, concluiu. Correu o mais rápido possível para chegar à entrada do prédio antes de estar completamente encharcada, mas as gotas de chuva inevitavelmente grudaram as barras dos jeans às suas canelas e teriam tornado sua camisa branca transparente se não tivesse vestido o blazer antes de sair do carro. Passou a mão pelos cabelos e sentiu os cachos, agora úmidos, murchos e sem volume. Ainda teria um grande problema com frizz quando eles secassem. Dentro do elevador, depois de apertar o botão do décimo segundo andar, tentou não sentir raiva de si mesma por ter decidido entregar o celular à amiga nessa noite, ao invés de simplesmente esperar até o dia seguinte.

Mesmo com as roupas e os cabelos bastante molhados, foi recebida por Cláudio, o marido de Rachel, com um abraço caloroso. Tentou explicar que só queria devolver o celular de Rachel e voltar para casa, mas ele insistiu para que ela entrasse para se secar e ficasse para o jantar. Ainda chovia muito lá fora, Gustavo, seu filho, passaria a noite na casa do pai e ela sabia que não chegaria a Perdizes, onde morava, tão cedo. Rendeu-se e aceitou o convite. O estrago já estava feito.

Cláudio tinha essa mania de sempre se esforçar para garantir o bem-estar dos outros. Os olhos orientais, de descendência coreana, frequentemente pareciam menores do que realmente eram, porque na maior parte do tempo havia um grande sorriso em seu rosto. Sua determinação em deixar todos bem, em todas as situações, era quase tão grande quanto seu amor por esportes. Tinha jogado vôlei no time da universidade, durante a juventude, mas precisou abandonar as quadras por causa de uma séria lesão no ombro. Atualmente, suas atividades esportivas se limitavam a jogar futebol com os colegas do escritório de arquitetura, uma vez por semana, e a assistir a todo e qualquer programa esportivo disponível na televisão.

Nessa noite, no entanto, ao entrar no apartamento dele, Isabel não ouviu as habituais vozes de comentaristas de mesa redonda. No lugar, havia uma melodia alegre e delicada sendo executada ao vivo. Diante do piano, que durante anos permanecera intocado no canto daquela sala, Carolina, a filha de Rachel e Cláudio, estava sentada ao lado de um rapaz. Era ele quem efetivamente tocava o instrumento, sendo cuidadosa e atentamente observado pelos curiosos olhos da menina.

Cláudio entrou pelo corredor para buscar uma toalha e Isabel ficou em silêncio, assistindo à garota tentar repetir a sequência de notas que o professor tinha acabado de executar. Carolina era sua afilhada e, no começo do ano, tinha comentado com a madrinha a vontade de aprender a tocar piano. Isabel não dera muita atenção a isso na época. Era normal que Carolina manifestasse interesse em praticar atividades diferentes e, na semana seguinte, não levasse mais os planos adiante. Dessa vez, no entanto, ela parecia ter levado o plano muito a sério. Seus cabelos, de pontas descoloridas em mechas californianas, balançavam a cada nova tecla apertada do instrumento, como se dançassem. Ela claramente estava determinada a repetir as notas com perfeição e, na percepção de Isabel, seu desempenho era tão bom quanto o do professor.

Como devia estarOnde histórias criam vida. Descubra agora