Preguiça de Torlone

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Desistir é a pior das escolhas. É possível sentir o odor da tristeza, o grito do medo e ver de perto os olhos da morte. A preguiça é o desleixo na vida, a entrega ao limbo. Quando a dor é forte ao ponto de se querer apenas a inanição, é porque ela transbordou. Isso significa que a dor queimou tudo, até mesmo o sentir. Ter preguiça em viver ocorre quando a dor é tamanha que já não dói mais, pois não resta mais nada.

Crescer em uma família pobre não é algo fácil. Desde os meus 10 anos de idade eu já ajudava na pousada da família. O lugar era pequeno, com poucos quartos, sem conforto, mas era o que tínhamos de mais precioso. Não tive uma infância com brinquedos, brincadeiras, amigos ou diversão. Meu dia era preenchido com atividades como lavar banheiros, dobrar roupas, comprar coisas na mercearia e fazer tudo o que meus pais pediam. Não havia descanso, era trabalho em tempo integral.

- Torlone levanta que tem muita coisa para fazer hoje. – Acordei com minha mãe gritando na porta do quarto.

- Qual o dia que não é assim? – Falei mais alto do que devia.

- Eita! O menino já acorda reclamando. – Ela bateu a porta e desceu.

- Torlone! Precisamos de manteiga e de uma boa limpeza na entrada da pousada. Levante logo. – Meu pai gritou do andar de baixo.

Olhei para o relógio, 5h da manhã. Em meus 16 anos, acordar essa hora e só parar de trabalhar às 22h para ir dormir, não é lá algo muito fácil. Não tive infância, não tenho amigos, muito menos uma namorada. Não sei se o que tenho é uma vida de verdade, pois só conheço o trabalho e o cansaço.

Tomei um banho de água gelada no balde e fui comprar a manteiga na mercearia perto de casa. Café da manhã só depois de fazer alguma atividade antes. Nunca senti ter um pai ou uma mãe, sempre pareceu que tinha dois patrões.

A melhor parte de ir a mercearia era ver Margareth. Aquela menina conseguia me fazer sorrir, mesmo sem motivo. Foi com ela, que um uma manhã, senti pela primeira vez o sabor de um beijo. Foi rápido, mas bom.

- Acorda para vida menino! – Meu pai passou ao meu lado e me deu um tapão na cabeça. Olhei para ele sem entender, sentindo dor.

- O que eu fiz? – Perguntei.

- Fica aí rindo igual bobo. Concentração no trabalho, seu peste. – Nesse dia, uma parte de mim foi apagada.

Em diversas noites eu fui dormir com fome, pois meus pais juntavam todo dinheiro possível para um dia sairmos do interior. Mas isso nunca aconteceu. Primeiro, era muito difícil juntar dinheiro porque havia poucos clientes e muitas despesas. Em segundo lugar, depois de anos juntando dinheiro, a pousada foi assaltada e levaram tudo o que meus pais conseguiram juntar. Em terceiro lugar, meu pai ficou muito doente e morreu. Além dos gastos gerados, tudo ficou mais difícil para apenas eu e minha mãe administramos.

As dificuldades aumentaram. Depois de algum tempo, minha mãe passou a usar seu corpo como moeda de troca, para pagar as contas e comprar mercadoria. Acabou se tornando amante do dono da mercearia. Ele ia à pousada toda noite e quando estava brigado com a mulher, ia duas vezes ao dia.

Doeu ver minha mãe naquela situação e não poder fazer nada para ajudar. Em uma noite, depois que o dono do mercado a usou e foi para casa, juntei coragem para falar com ela.

- Eu não acho certo o que a senhora está fazendo. – Disse quase como um sussurro. Ela se virou com os olhos em chamas e deu um tapa forte em meu rosto.

- Não acha certo? Sabe a comida que todo dia você come? Pois bem, ela só existe por conta do que estou fazendo. – Seus olhos se encheram d'água. – Você acha que gosto do que faço? Não gosto! Você acha que sinto prazer? Não sinto. Eu me odeio por isso, mas não irei morrer de fome.

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