A índia, a sereia e a serpente

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A índia, a sereia e a serpente.

Um conto de terror por

Ananda V.



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Ao cair das estrelas do firmamento, era possível ouvir a voz.

Na maioria das vezes, era de uma candura comovente. Melodiosa, bonita, fascinante. Noutras noites, as de lua cheia, tornava-se ainda mais especial. Era como se Jaci, ou o próprio astro resplandecente, estivesse entoando hinos, rapsódias dramáticas que invadiam o íntimo, ardiam na alma. Em algumas pessoas, no entanto, causava temor. O belo tinha esse poder ambíguo — o de seduzir, mas também de conduzir à perdição. Há de se desconfiar daquilo que se apresenta assim, indefectível, inefável. Uma das figuras maléficas mais famigeradas é conhecida pela alcunha de "anjo de luz", o que ministrava belas louvores. Em suma, o mundo é assim: um lugar onde vícios e virtudes dançavam na mais perfeita harmonia da volúpia proibida. Não há como se agarrar a um extremo, a um conceito, a um único desejo. Somos estrelas cadentes no céu da vida: nascemos, queimamos, morremos. É uma experiência breve demais para nos darmos ao luxo de desperdiçamos com os dogmas da moral.

Mesmo ainda muito jovem para se perder em conceitos tão filosóficos, Andirá, uma índia brasileira de doze anos, possuía uma visão plural de mundo. Ela adorava o calor escaldante dos verões tropicais, mas contemplava a chuva de inverno com igual deleite. Ainda mais delicioso do que isto, era o casamento da raposa, onde sol e chuva tornavam-se bons amigos e desciam de encontro a ela, espalhando calafrios por sua pele. Ela caçava, dedicava-se aos rituais, respeitava os xamãs e anciões profundamente. Ter nascido ali, no seio da Amazônia, era um de seus maiores orgulhos.

O homem branco tinha invadido suas terras anos atrás, considerando-os selvagens carentes de cultura e religião, bárbaros que precisavam de domesticação. Forçaram sobre eles seus ideais absurdos, os obrigaram a lutar suas guerras e consumirem sua cultura. Uma violência sem igual, a praticada naqueles dias — e, infelizmente, muito viva na atualidade. Andirá estava feliz por, apesar de terem adotado certos costumes que não lhe pertenciam, sua tribo ainda conservar os rituais ancestrais, os hábitos sustentáveis e o respeito a Mãe Natureza. Estes valores não podiam ser perdidos, nunca. Fora uma via de mão dupla, também. Muito havia de sua cultura na do homem de tez ebórea. O índio era sábio, eles reconheciam, desenvolvendo teorias astrológicas e astronômicas antes mesmo do homem branco, observando as fases da lua e a interação disto com a natureza, aprimorando técnicas sofisticadas de plantio, cuja mitologia rica exercia deslumbramento.

Andirá era a única menina da ninhada de dois irmãos, sendo ela a mais velha. Em noites especiais, sentava-se com eles à beira de uma grande fogueira crepitante a fim de ouvir as histórias sobre os velhos costumes, a maneira como caçavam e cuidavam da plantação de mandioca, abóbora, feijão. Cantavam as canções que ecoavam o passado, narravam as lendas de Tupã e da Caipora, do Uirapuru e do Boitatá, perpetuando e reascendendo os valores de seu povo. E a voz, aquela mencionada logo no comecinho, a que encantava e causava tremores, fazia parte deste folclore. No encontro entre o Rio Negro e o Solimões, afirmava-se existir uma criatura cabalística que seduzia os pescadores, que prometia paixão e entregava a morte. Chamavam-na de sereia, meio-peixe, meio-humana. Em noites de lua cheia e lua nova, quando o mar se revolvia com mais intensidade e as ondas eram mais volumosas nos rios amazônicos — causando a afamada pororoca —, o canto das águas misturava-se ao desta criatura maravilhosa, a que recebia o nome de senhora do mar. No que diz respeito ao aspecto físico, afirmavam que a Mãe-d'água possuía a tez de onça parda, onde a cabeleira verde qual as águas de Angra dos Reis, se destacava. Era impossível fugir de seu canto e encanto.

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