Letra capitular

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O que a gente faz?
Quando não tem mais para onde fugir.
Quando o Estado é estreito e todas as paredes se encontram e se encaixam de forma desastrosa.
A história a seguir é de uma pessoa que fez o que pôde para florear risos no pântano.

Pântano de histórias repetidas, de corações partidos, de gralhas reclamadoras.
Tudo é breu e é bom. Um breu de tranquilidade em que só a antissocial vive e revive tudo o que viu e não viu.

A sintonia que a levava para todos os afazeres diários.
Harmonia de canções de amor que a lembravam de um par que ela um dia teve.
Uma vida cercada de idas e vindas.

Um vida curta. Tão jovem era.

As nuvens não se dissipavam se Nívea não ordenasse.
A dona das nuvens.

Olhava tanto para cima que quase tropeçava na realidade vivida ao longo do dia.
Ouvia Cícero quando tudo desbotou e ela desmaiou no                 
                                               meio da rua.

"E tudo foi desbotando até desaparecer"

...

                                                               ☁

Nívea acordou em um lugar que não sabia ao certo o que era.

Parecia uma loja com cheiro de avó e chocolate quente, duas somas incríveis.
Não pensou em levantar quando ouviu vozes desconhecidas. Fingiu de morta que nem os cachorros fingem para ganhar um doce. Aqui, "é para garantir meu coração batendo", refletiu.

"Onde você colocou o bule que te entreguei para empacotar para presente?", sussurrava uma voz ao longe.

"Quêee bule?", respondeu uma voz jovem.

"Esse bule!", quando essas palavras foram ditas, um estrondo de uma peça de vidro foi de encontro com o chão e acordou Nívea que não estava dormindo, mas desejava estar.

Ela se encolheu para os estilhaços não encostarem sua pele, e levou as mãos no rosto para também protegê-lo.

A senhora idosa, dona da voz desconhecida, gritou de espanto como se a menina fosse uma barata incrustada com mini minhocas em torno dela.

Nívea levantou e sua franja parecia ter gostado de ficar do jeito que estava quando deitada. Percebeu porque os dois riram com terrível intensidade apontando para o cabelo da jovem.

Ela perguntou o que estava acontecendo e arrumou rapidamente os cabelos bagunçados.

A senhora sorriu. Pegou na mão dela e fez um carinho de cima para baixo na palma da mão.

"Será que vai ler minha mão?", questionou.

A idosa era japonesa e parecia não entender uma palavra do que a menina falava.

Nívea sorriu de volta sem jeito e procurou o dono da voz jovial que ouvira anteriormente pela sala.

Foi quando descobriu em que lugar estava: um antiquário incrivelmente organizado. Apesar de todos os objetos que cercavam a sala não demonstrar organização. Parecia ter sido projetada para acomodar os móveis apenas perto das paredes, nas margens do quarto, mas tinham antiguidades até no teto!
Estava organizada até chegarem mais e mais objetos.

O papel de parede verde musgo se perdia em meio a tantos quadros e tantas caricaturas feitas e deixadas para empoeirar emolduradas em um dourado clássico.
Nas paredes tinham armários quase que grudados em cada canto. Neles, todas as especiarias que você pode imaginar se escondiam. Desde dragões chineses, apesar da idosa ser japonesa, às canetas que pareciam reluzir ouro. Os móveis tinham uma cor singular que ela nunca vira na vida: um rosa, com um tom laranja, que lembrava a cor do pêssego maduro rosa claro pastel.

O cheiro de incenso de lavanda recheava a sala como uma flor borrifando o mais delicioso perfume.

O menino devia ter 17 anos ou um pouco mais. Os cabelos escuros rebeldes emolduravam seu rosto, as maçãs coradas, os olhos cor âmbar... o rosto cintilava como o de um animal. "Um tigre, talvez", imaginou;

"Que bom que você chegou. Estávamos a sua espera. Sou seu instrutor", disse com um sorriso amarelo.

"Instrutor? Ahh... legal. Muito bom ouvir essa história. Preciso ir, tchau", falou ela dando as costas para os dois que acabara de conhecer.

"Mas o que você quer lá? Sabe que não pertence àquele lugar e que viveria melhor em um onde todos te respeitassem pelo que você é e não pelo que aspira ser. Famosos 'wannabes'", ressaltou ele sorrindo como se falasse algo tão óbvio quanto "o céu é azul".

"Han? Isso não deve ser tão difícil de reparar... o lugar é tão pequ", ela sentiu uma pontada no cérebro como se alguém tivesse mexendo com pauzinhos o que ela falaria em seguida e por isso parou de falar.

"Eu estive te observando mais tempo do que gostaria... mas, então, vamos pelo básico: se descreva", sorriu ele.

"N- não, obrigada. Já passei dessa fase", gaguejou a menina procurando a saída com os olhos meio que perdida com o relógio que não passava as horas. Estaria ele quebrado?

"Acho que não quer se descrever porque não sabe quem você é", disse ele como se fosse o mestre das adivinhações.

"Essa é boa! Você pode me descrever. Fique a vontade", disse ríspida menos do que deveria ser.

"Ué, foi o que você disse para o Fulano dia treze de outubro de 2010. Que era impossível ele te amar se nem você mesma se conhecia o suficiente para fazê-lo", comentou mostrando olhos mais claros do que Nívea observara.

Nesse momento ela viu que deveria sair dali imediatamente. Esse era o stalker mais sinistro que deve ter conhecido até hoje. E olha... história de stalker ela tem muitas.

"Interessante... muito interessante. Agora posso ir, né?", disse a menina enquanto montava um plano de fuga. Primeiro quase tombava seu corpo para a direita, com isso ia pela esquerda e dava a volta ali. Mais do que isso, Nívea queria encontrar a saída de uma vez por todas. O plano de fuga estava feito.

"Mas você acabou de chegar", quando o disse, ela fez o que havia planejado.

Nesse momento o chão em que pisara se moveu, as paredes se moveram como se estivesse numa casa de boneca e alguém a balançasse. "Terremoto?", pensou. Mas era muito mais forte do que um simples terremoto. Nívea não conseguia se segurar. Os dois personagens sumiram de vista. O incenso perdera o cheiro suave e o amargo pareceu dominador. A menina bateu a cabeça na quina da cômoda mais próxima e nunca mais acordou.

...

Até agora.

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